news-details
Crônicas de um Sol Nascente

Pinel.com

No excelente filme “Mad Max: Estrada da Fúria” (2015), o personagem principal diz: “Era difícil saber quem estava mais louco: eu... ou todos os outros”. Lembrei-me imediatamente dessa frase, há alguns dias, por ocasião do crime cometido pelo “Coringa japonês”, que, usando de uma faca e um líquido inflamável, feriu dezessete passageiros de um trem em Tóquio, sendo um deles de modo grave. O indivíduo, preso em flagrante, disse às autoridades policiais que, revoltado com o tratamento que recebia do mundo, queria matar o maior número de pessoas para poder ser condenado à pena capital (legalizada no Japão).

Enfim, mais um vitimista responsabilizando a depressão, o mundo, Deus e o diabo... tudo para justificar a sua má índole. Vitimista, sim, repito: porque, afinal de contas, seus sofrimentos pessoais não lhe dão qualquer direito de sair por aí ceifando a vida alheia. E mais: sei o que o que vou dizer é duro, mas penso exatamente isto a respeito desse tipo de maníaco – está revoltado com o mundo? Mate-se em silêncio e sem respingar o seu sangue em outros. O resto é drama para chamar atenção.

Aliás, essa mania de apelar só para ganhar holofotes ficou ainda mais grave nesses tempos escabrosos de redes sociais. São tantos os acontecimentos esdrúxulos no mundo virtual das “curtidas” que, citando novamente “Mad Max”, acho sinceramente que ou enlouquecemos ou estamos todos vivendo em uma realidade fabricada à la “Matrix” (outro filmaço!). Um dia desses, por exemplo, vi a foto de uma “influenciadora” (que, no meu tempo, era conhecida como oportunista e outros nomes bem menos elegantes) posando de um modo sensual ao lado do caixão do próprio pai.

Pobre senhor! Que semente maldita essa, não concordam? Ou o que falar também do imbecil em Manaus que, para querer causar no Halloween, usou uma fantasia zombando do trágico fim de Eliza Samudio? E, para além desses dois exemplos, outras formas de desrespeito têm sido testemunhadas diariamente na internet – uma nova e perigosíssima arma, que, ao que parece, veio para destruir a tudo e a todos. De tal modo que, cansado de ver tantas aberrações, tenho muitas vezes optado por desligar o celular. Isso mesmo! Prefiro muito mais assistir em DVD a um filme de terror qualquer: este bem mais leve que as chamadas redes sociais!

Sim, confesso que a internet tem me trazido mais medo do que diversão. A ponto de muitas vezes desejar voltar no tempo, rumo a um planeta repleto de cartas, telefones públicos e conversas à porta de casa. Por outro lado, tenho consciência de que, sem a mesma internet, eu não estaria agora escrevendo este texto, para enviá-lo em seguida por e-mail aos editores do jornal. Sem a internet, ainda, eu também não haveria encontrado tantos amigos literários espalhados pelo mundo. E mais: sem a internet, eu sequer poderia fazer literatura. Sem a intrenet, enfim... Pronto, até já me esqueci de o porquê de, segundos atrás, estar demonizando o nosso amado e imprescindível mundo da web.

É, vai ver que o louco nessa história... sou eu.

***

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de nove livros, sendo o mais recente: “Crônicas de um latino sol nascente” (Telucazu Edições, 2020). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

Você pode compartilhar essa notícia!

0 Comentários

Deixe um comentário


CAPTCHA Image
Reload Image