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Crônicas de um Sol Nascente

Pequenos grandes campeões

Nada de eleições brasileiras. O evento que realmente celebrei na semana passada foi o primeiro “Dia do Esporte” de meu filho na creche.

Dando mais detalhes: todo início de outubro, as escolas, os jardins de infância e as creches no Japão realizam o undoukai, que é o dia em que os pais são convidados para assistirem à prática esportiva dos rebentos. Uma ocasião que, como podem imaginar, foi muito emocionante para a nossa família.

Principalmente porque foi uma oportunidade de testemunharmos o progresso do pequeno, digamos, em sociedade. Ao longo de uma hora, nosso Endi participou de três modalidades: movimentos sincronizados, corrida e dança. Executando todas as etapas sem problemas (e juro: isso não é “corujice” deste pai que vos escreve). Tanto que, na corrida, foi até um dos mais rápidos. Sim, teve medalhinha (como orgulhosamente anunciei nas redes sociais). Mas aí é que surge o aspecto que mais me chamou atenção a respeito do undoukai: na medalhinha não estava escrito “primeiro”, “segundo” ou “terceiro” lugares, mas apenas um singelo “omedetou! gambarimashita!” – traduzindo: “por haver se esforçado, parabéns!”. Aliás, independentemente das posições alcançadas, todas as crianças receberam a mesma medalhinha com a referida mensagem.

Confesso que adorei e aplaudi a iniciativa, que na verdade não é assim tão incomum no sistema educacional japonês. Pois, ao contrário de nossa cultura de “novo mundo”, extremamente competitiva, o Japão opta pela maior valorização do esforço. O resultado é importante? Sim, mas no seu devido tempo. Uma vez que o objetivo é fazer com que os pequenos tenham consciência, primeiro, da importância da dedicação: o que inevitavelmente levará ao progresso individual.

Sim, naturalmente, criado no Brasil, gosto de competições. Porém, fico muito feliz que o meu filho esteja desenvolvendo um espírito de progresso nos moldes da cultura japonesa. Porque, francamente, acho que essa obsessão pelo topo do pódio, tão ao gosto do nosso continente americano, chega a ser doentia. Tipo: “meu filho é primeiro lugar, é melhor que o seu e... blá-blá-blá!”. O pior de tudo é que isso acaba criando nos pequenos uma ilusão de superpoder. De modo que, quando crescem e se deparam com a realidade fora de sua bolha (uma competição verdadeiramente internacional, por exemplo), acabam levando um choque tão grande que podem tolher o próprio progresso. Nada saudável, enfim.

Alguns podem contra-argumentar dizendo que valorizar o esforço não é o suficiente para gerar campeões. Ora, por favor! Acaso o Japão não está sempre no topo em quesitos como esportes, artes, ciências e tecnologia? Não é o Japão uma referência de qualidade para o mundo inteiro?

Sim, senhor: o sistema educacional japonês, com a inteligente valorização do esforço sobre o resultado, indubitavelmente tem formado, desde a mais tenra idade, grandes e verdadeiros campeões: incluindo na modalidade “caráter”.

***

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal, é autor de dez livros, sendo o mais recente “Contos de um Brasil esquecido”. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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