João Henrique, de 30 anos, e João, de 43, contaram como tem sido a nova rotina, os principais desafios deste período e também o que têm aprendido sobre paternidade durante a quarentena
Que a pandemia do coronavírus afetou a rotina de todo o mundo não é segredo para ninguém. O home office foi uma das principais mudanças: aliar disciplina e produtividade de casa não é tarefa fácil, principalmente, quando é preciso estender os cuidados com a família.
Por isso, nesta edição especial de Dia dos Pais, o Jornal Em Dia conversou com pais que enfrentam a missão do trabalho remoto com os filhos em casa. João Henrique, de 30 anos, e João, de 43, contaram como tem sido a nova rotina, os principais desafios deste período e também o que têm aprendido sobre paternidade durante a quarentena. Confira:

Para o bancário e pastor João Henrique Costa Durães, de 30 anos, tem sido um grande desafio administrar a vida profissional e os compromissos com a Igreja Evangélica Restauração – de forma remota – com a educação dos filhos, que também estão em casa por conta da pandemia do coronavírus.
Pai de Giovanna Hadassa, de 9 anos, e Asafe Henrique, de 4, ele conta que viu sua rotina mudar completamente com o isolamento social. A instituição em que trabalha adotou uma política de reveza-mento, assim, durante o mês, ele trabalha ao menos durante uma semana em casa.
Para conseguir trabalhar no home office, além de precisar de muita disciplina e do auxílio da esposa, ele conta que foi preciso escolher um local mais tranquilo e silencioso para que pudesse se concentrar. Mas só isso não foi suficiente para conciliar a rotina com as crianças. “No início, tive que explicar que o papai estava trabalhando, que não podia brincar naquele momento. É um desafio falar com a equipe que lidero, falar com os clientes, fazer negócios e, ao mesmo tempo, fazer isso de uma maneira com que as crianças entendam que é trabalho, embora não esteja no local de trabalho”, conta.
A energia das crianças em casa também levou à busca de novas formas de aprendizado e entretenimento. “Continuar desenvolvendo a criatividade e a busca por aprender, agora sem esse método didático – até porque as escolas que nossos filhos estudam não estavam tendo nenhum trabalho on-line até então, há pouco tempo que vieram a ter – é um desafio. É um grande período sem alguma atividade programada, mas a gente buscou algumas maneiras on-line, alguns trabalhos para não deixar todo tempo ocioso que, infelizmente, pode acabar apenas no entretenimento, e não é bom, não é saudável para o desenvolvimento deles”, afirma.
Apesar dos desafios, João tem enxergado essa situação de forma positiva. “Pelo fato de eu trabalhar em outra cidade, eu não tinha a experiência como a de almoçar com a minha família durante os dias da semana. Isso é precioso. Com o deslocamento, ficava pelo menos dez horas ausente no dia e, infelizmente, quando eu saía cedo, as crianças estavam dormindo e eu chegava já era à noite. Então, sem dúvida, pelo menos essas horas do trajeto, eu ganhei de convívio com eles, o que agrega muito na qualidade de vida”, explica.
João também relata que tem aprendido com os filhos durante esse período de quarentena. “Aprendi que meu filho menorzinho chuta muito bem a bola, eu gosto muito de futebol, minha filha tem uma facilidade com jogos de estratégia e memorização, e aprendi que eles também valorizam o pai em casa”, pontua.
O bancário contou quais valores busca passar aos pequenos, principalmente agora, com mais tempo em casa. “A gente procura ensinar nossos filhos no melhor caminho possível. Especialmente nessa quarentena, a gente tem tentado explicar para eles a brevidade da vida. A mais velha entende um pouco mais, com o mais novo, a gente brinca que tudo isso que estamos vivendo é porque tem um bichinho invisível que faz muitas pessoas ficarem doentes. Então, isso deve nos levar a refletir que as vezes somos tentados a ser orgulhosos, até mesmo a brigar com o irmãozinho, sendo que as pessoas que amamos podem não estar com a gente daqui a pouco. Todos nós temos algum conhecido ou familiar que teve, pode ser que tenha se recuperado ou pode ser até que tenha sofrido uma perda”, explica.
Ensinar a gratidão e a solidariedade a eles também é uma meta para João. “Foi mais evidenciado nesses dias o quanto o homem é egoísta de maneira geral. Então, a gente procura ensinar isso para eles, que devemos agradecer a Deus se pelo menos temos o alimento, uma roupa, um cobertor e um teto, porque muitos não têm. O que a gente pode tirar de proveito com tudo isso que estamos vivendo, como princípio cristão que temos, nós cremos que Deus está no controle de tudo e a ele nós devemos apresentar nossas orações e pedir para que tudo isso passe logo. É um momento muito diferente na história de todos nós, nunca tínhamos vivido isso, então a gente precisa aprender a valorizar isso, os bons momentos, colocar a mão na consciência, percebemos que não precisamos consumir o tanto que consumimos, vivemos com bem menos. Na prática, é ser agradecido com o que têm, ajudar de alguma forma no serviço doméstico, aprender sobre a questão de racionamento”, revela.
Mais do que isso, todo esse cenário o levou a refletir sobre o equilíbrio com o trabalho e a vida pessoal. “Realmente, nós precisamos trabalhar e junto com nossa obrigação de trazer o sustento para nossa família, nossos filhos, nós temos a responsabilidade de educá-los da melhor maneira possível, dentro dos princípios que acreditamos e dando esse exemplo do trabalho, que dignifica o homem, mas podemos enxergar o isolamento não como conflito, mas sim, separar um tempo, um lugar mais quieto, conversar e explicar para os filhos – dependendo da idade pode ser que demande um pouco mais de atenção inicialmente –, mas deveríamos enxergar como uma oportunidade de ganho de qualidade de vida, sem deixar de produzir com o trabalho em casa. Quem sabe o melhor caminho seja realmente conciliar, de alguma forma, não ser exagerado no trabalho e com essa moderação, descobrirmos uma maneira de fazer com que apresentemos resultados, mas consigamos tomar a refeição com nossos filhos”, fala.
João diz que levará esses aprendizados mesmo quando a situação se normalizar e buscará manter o hábito do que chama de “tempo de qualidade”. “Aquilo que foi bom nós precisamos manter. Quando as coisas voltarem ao normal, a pressão vai ser grande, mas pretendo, com toda perseverança, aproveitar aquilo que ficou de bom, aquilo que a gente cultivou com nossos filhos e família nesse período”, afirma.
O bancário conta que o contato com o pai, João Batista, infelizmente foi reduzido devido à pandemia, já que ele faz parte do grupo de risco, mas que neste Dia dos Pais, fará questão de parabenizá-lo. “Tem sido difícil, a gente faz muita chamada de vídeo com as crianças. Este domingo será um dia de comemorar, mesmo que de longe, para, pelo menos, felicitá-lo”, diz.
Para ele, não é preciso um presente especial nessa data “Não tenho muito o que pedir. Já sou muito grato pela família, saúde e harmonia que temos”, pondera, afirmando que ser pai é um privilégio que envolve diversas responsabilidades.
“A paternidade é um presente, um dom dado pelo criador, ou seja, ele nos deixa experimentar dessa grande virtude de ter uma vida que é sangue do seu sangue e, assim como na oração que nos é ensinada por Jesus, a mais conhecida, em Matheus 6, ele chama a Deus de Pai Nosso. Então, é um grande privilégio, porque nós participamos dessa experiência de direcionar, de ter alguém sob nossa responsabilidade. Cito mais uma vez um texto bíblico, Salmos 127:3: ‘Herança do Senhor são os filhos; o fruto do ventre, seu galardão. Como flechas na mão do guerreiro, assim são os filhos da sua mocidade. Feliz o homem que enche deles a sua aljava; não será envergonhado”, declara.
Por fim, João deixa uma mensagem a todos os pais, para que possam aproveitar essa data demonstrando todo o seu afeto. “Que cada um consiga aproveitar de alguma forma o seu pai e honrá-lo, mostrar que ele é importante e, quem sabe, até nos desafiarmos com palavras de afeto, pois precisamos dizer o quanto o amamos e que isso logo vai passar. Nós estamos tendo uma experiência diferente, mas que sempre nos ensina, precisamos aprender com tudo. Quem sabe você não tenha mais seu pai ao seu lado, mas nós podemos encontrar descanso e conforto no pai do céu”, encerra.

Professor de Filosofia e Sociologia na E.E. Fernando Amos Siriani, em Bragança Paulista, João Santos, de 43 anos, enfrenta um dos maiores desafios de sua carreira e também da paternidade: o home office. Com o fechamento das escolas em virtude do isolamento social, João se divide entre as tarefas do trabalho remoto e os cuidados com o pequeno Caio, de 5 anos.
Em casa desde março com a esposa, o filho e dois enteados, conta que sua rotina sofreu uma verdadeira reviravolta. “Antes, eu podia sair para dar aulas, me distraía com isso. Sempre fui um professor muito ligado aos meus alunos, agora tenho que ficar trancado em casa com muito mais trabalho e com a carga horária estendida além da que eu já tinha”, explica.
No entanto, apesar de desafiador, ele conta que “a pandemia foi um mal que conseguiu converter em bem”. “Observando o primeiro mês, que foi um caos, consegui me estabelecer, ampliar a atenção ao meu filho e participar da vida dele de forma mais ativa”, revela.
Durante este período de quarentena, ele revela que o pequeno Caio tem inspirado mais cuidados. “Ele exige muito mais atenção, por mais que eu e minha esposa nos esforcemos, não tem como aplicar dinâmicas como na escolinha, não tem como produzir brincadeiras educativas no mesmo nível”, comenta.
Com isso, João conta que sente certa “culpa” ao poder dar um suporte maior de aprendizagem aos seus alunos do que ao seu filho. “Nesse contexto, eu fico entre a cruz e a espada, pois tento ao máximo proporcionar educação de qualidade para os meus alunos, enquanto sinto que estou deixando a desejar com meu filho. Fica difícil dar uma aula excelente para os filhos dos outros e não conseguir fazer isso para o meu próprio filho, pois minha formação não é voltada para o infantil”, revela.
No entanto, as dificuldades se tornam pequenas diante da relação que João possui com o filho. “Sempre houve uma ligação extraordinária entre mim e meu filho, a ponto de eu ir trabalhar e levar ele junto em reuniões, ir buscar ele na escola e fazer questão de saber como foi o dia dele. As primeiras necessidades básicas fui eu que ensinei para ele, tal como sair das fraldas, usar o vaso sanitário, largar a mamadeira, escovar os dentes. Agora, estou ensinando ele a tomar banho sozinho”, conta.
Tudo isso porque o professor considera que as tarefas da educação devem ser divididas igualmente entre os pais. “Eu acho que todo pai deve ter o senso de cuidar do seu filho e não deixar somente a cargo da esposa. Quando digo cuidar, é educar da forma certa, dar carinho, atenção e prestar atenção na relação que está construindo com ele”, aponta.
Agora, durante o período de isolamento, ele acredita que a importância do papel da família foi ainda mais evidenciada. “De uma forma ou de outra, a família tem que suprir as necessidades do filho, seja na educação familiar, seja na educação social. Torna-se difícil, pois a sociedade de hoje não valoriza laços, porque é muito mais fácil, ou cômodo, terceirizar a educação dos filhos, seja esta familiar ou social”, defende.
Assim, ele reforça que é fundamental fortalecer os laços familiares, pois em sua vivência escolar, nota que muitos casos de alunos com problemas são resultado do descaso familiar. “O curioso é que vem da infância para a adolescência e corre-se o risco de chegar à idade adulta com a mesma mentalidade de descaso que os pais ou pior”, argumenta. Nesse sentido, João espera que a pandemia ressignifique as relações humanas, sobretudo, as familiares. “Devemos aprender com esse período, valorizar a nós mesmos e principalmente o próximo”, observa.
O professor incentiva o filho a usar todas as medidas de prevenção neste período, já que Caio ainda não tem a completa noção do que está acontecendo, mas também tem aprendido e muito com o pequeno. “Tenho aprendido que a imaginação e a vontade de aprender são detalhes imprescindíveis ao ser humano”, pontua.
Quando o assunto é a educação de Caio, João explica que tenta retrans-mitir os mesmos princípios que seu pai, Raimundo, o ensinou. “Procuro passar os mesmos valores que meu pai passou para mim, dividir o que tenho, compreender a mim mesmo, as pessoas e o mundo ao meu redor, tentando fazer o melhor juízo de valores possível. Meu velho era analfabeto, mas essa herança ele me deixou e tento passar o mesmo para o meu filho. Por isso que digo que os valores familiares são importantes: a criança sempre vai observar quem está na frente dela, isso não formará o seu caráter, de fato, mas ajudará e muito na formação”, fala.
Seu pai faleceu há três meses em virtude de um AVC (acidente vascular cerebral), mas João revela que os valores deixados por “seu velho” permanecem em sua vida. “[Com ele] aprendi que devemos nos conhecer como ser humano, respeitar o próximo e viver em harmonia”, diz. Assim como aprendeu, ele espera que o seu filho “seja um ser humano digno de autorrespeito e que saiba respeitar o próximo”.
Com o estreitamento dos laços afetivos durante a pandemia, João tirou como lição que “ao tempo, tem que ser adicionado qualidade” e espera levar esses aprendizados mesmo após a volta da vida “normal”. “Peça tocada é peça jogada, temos que tirar o melhor de tudo, sejam experiências boas ou ruins”, declara.
Aos pais que, como ele, enfrentam os desafios da vida profissional e paterna em casa neste momento, ele deixa uma dica. “O conselho que dou é que evitem stress desnecessário com bombardeio de informações via internet e TV, que vejam a partir dos seus filhos algo que os façam vencer esse momento difícil”, recomenda. Outro conselho de João é “otimizar relações”. “Ser pai, para mim, representa viver um dia de cada vez e o pensar em mim tornou-se pensar no meu filho”, completa.
A grandiosa missão da paternidade, apesar de agora ser ainda mais desafiadora, para João, tem sido gratificante. “A melhor recompensa é que estou observando no meu filho características que não conseguia observar anteriormente, tal como a sua curiosidade, sua tendência a autonomia em algumas atividades”, ressalta.
Neste Dia dos Pais, ele revela qual seria o presente perfeito. “Eu pediria que os pais dessem mais valor à sua família, observassem o crescimento dos filhos, tanto de forma espiritual quanto física, pois é um período que é muito breve. Meu pai me deu esse presente”, revela.
Por fim, João compartilhou uma reflexão sobre o que pensa da paternidade e deixou uma mensagem a todos os pais. “‘O crescimento adequado dos teus filhos deve ser, por obrigação, o teu orgulho como pai’. Peço a Deus que todos os pais tenham a chance de acompanhar a trajetória dos seus filhos e que, ao acompanharem, se orgulhem e, caso não tenham conseguido, que seus filhos reconheçam neles a tentativa, que não foi em vão”, conclui.
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