Lá de onde veio, não havia essa fartura toda, não. Não havia sequer esses mercados assim enormes, onde a gente é capaz de se perder de tanto corredor que tem. É tanta coisa, que a gente chega a ficar desnorteado...
Há tempos, ele sentia mesmo que lhe faltava um norte, por isso, migrou para o Sudeste. Na antiga mala de couro, que pertencera a seu pai, trouxe umas poucas mudas de roupa, e porque sobrava ainda muito espaço, um punhado de esperança. A vida devia, tinha que ser melhor aqui.
Viagem longa, a janela do ônibus embaçada, ora pelo mormaço do ambiente fechado, ora pelas lágrimas que desaguavam involuntariamente de seus olhos. Não sabia ao certo se de saudade ou leve arrependimento, mas com certeza era o tipo de lágrimas que só os corajosos são capazes de chorar. Empreender uma viagem assim, tão incerta, era um ato de coragem absurda. Ainda mais se levando em consideração o fato de estar indo sozinha, deixando para trás seus pequenos.
Maria tinha cinco anos, José, sete, e portaram-se como dois verdadeiros adultos quando da despedida da mãe. Instruídos pela avó materna, mulher forte, árida como o sertão, os meninos não derramaram lágrima, permaneceram firmes, enquanto a mãe desfazia-se em dor ao abraçá-los pela última vez.
“A mãe vai mandar presente pra vocês, viu? E também vai escrever sempre pra vó...”.
A imagem terrosa da mãe e dos filhos postados à porta da antiga casa jamais sairá de sua mente. A poeira do sertão nunca sairá de suas entranhas. O sertão é feito de gente, cada micropartícula sua é composta de um sonho sertanejo. Sonhos que o sertão vez por outra rejeita. Sonhos que se tornam mais passíveis de realizarem-se no outro lado do país.
Lídia foi buscá-lo, o sonho de uma vida mais confortável para seus filhos. Não, eles não teriam que comer calango, como ela fizer na infância.
Daí seu susto, naquela manhã de domingo, quando, num gesto de mãe amorosa, foi à caça de ovos de Páscoa para enviar a seus “calanguinhos”. À primeira vista, o hipermercado, onde havia promoção, parecia-lhe monstruoso. Não sabia nem mesmo se orientar dentro dele. Não conseguia achar, pasmem, o corredor dos ovos de Páscoa. Estava atordoada, não podia demorar muito, a patroa a deixara sair só por uns instantes, a fim de que conseguisse aproveitar a promoção, válida só para aquele dia.
Finalmente, lá estavam, brilhantes, convidativos... Tanto que ela se viu novamente criança e pensou como teria sido se pudesse experimentar um daqueles. Não, eles não chegavam ao sertão. Páscoa no sertão era só penitência e recolhimento. A própria natureza como um todo convidava a isso. Páscoa era Cristo e só. Um Cristo ressequido pelo sol escaldante, cansado de sobreviver apenas. Um Cristo morto todo dia pela violência imposta pelo sertão. E que nunca ressuscitava no terceiro dia.
O Cristo ressurreto estava mesmo é no brilho dos olhinhos dos “calanguinhos”, quando receberam a visita do carteiro. O sujeito franzino, de no máximo trinta anos de idade, mas que aparentava bem mais, passava apenas uma vez por mês no vilarejo. Visita aguardada com ansiedade, só perdendo para a do Bom Velhinho, essa última promovida por uma ONG que todo dezembro visita o lugar.
Uma caixinha amarela com os dizeres SEDEX guardava o tão esperado envio. A remetente, a mãe ausente. Depois de muito custo, literalmente, ela havia conseguido juntar um dinheirinho e comprar um ovo de Páscoa, ainda que pequeno e singelo para seus “calanguinhos”.
Depois de aberta, com o auxílio da avó e de sua peixeira, a caixa revelava um conteúdo absolutamente diferente do esperado: o papel laminado, dourado feito o sol do sertão tentava conter uma substância marrom viscosa, o líquido dos deuses. Mas e o ovo de Páscoa?
O sol da viagem, da longa viagem, o calor da viagem e da terra; o calor da distância, separando a mãe de seus rebentos, a vida, a injusta vida afastando aqueles que se amam... Tudo isso havia desfeito o ovo de Páscoa comprado a duras penas e, junto com ele, o sonho daquela Páscoa diferente.
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