Neste mês, estão sendo realizadas diversas ações em alusão ao Outubro Rosa, campanha que visa conscientizar a população sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama - tipo mais comum entre as mulheres em todo o mundo depois do de pele não melanoma. No Brasil, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), são previstos 57.960 novos casos em 2018.
Segundo Simone Felitti, oncologista do Hospital Universitário São Francisco, diversos fatores estão envolvidos no desenvolvimento da doença. “O câncer de mama é uma doença de apresentação heterogênea, predominantemente feminina, composto de subtipos biológicos e seu prognóstico depende também de algumas variáveis, incluindo nisso idade, história familiar, mutações genéticas e hábitos de vida”, explica. De acordo com a profissional, esse câncer tem seu pico de incidência entre indivíduos com idade entre 55 a 64 anos, sendo que apenas 1,8% dos diagnósticos são realizados em mulheres abaixo de 34 anos e, entre mulheres mais jovens, as taxas variam de 5 a 7% do total de casos.
Às mulheres que desejam evitar a doença e ter uma vida mais saudável, as recomendações são: praticar esportes, alimentar-se de forma adequada, não fumar ou beber em excesso, sempre realizando exames periódicos, especialmente a mamografia. Caso haja familiares próximos que tenham ou já tiveram a doença, é preciso ter atenção redobrada. Para levar esta e outras orientações ao público é que ações como essa se fazem tão necessárias, explica a oncologista. “A campanha enfatiza a importância de a mulher conhecer suas mamas e ficar atenta às alterações suspeitas, além de realizar seus exames preventivos. Neste mês, são realizadas as maiores campanhas pela conscientização da comunidade que, só através da prevenção e autocuidado das mulheres, faremos cada vez mais diagnósticos precoces, que aumentam muito as chances de cura”, declara a profissional, deixando o alerta: “Quem procura cura”!

O diagnóstico precoce é um grande aliado para um tratamento de sucesso. Quando descoberto com precisão, a chance de cura é de até 95%. Por isso, iniciativas como o Outubro Rosa surgem com o intuito de despertar hábitos mais saudáveis nas mulheres, de forma a prevenir essa moléstia e aumentar a chance de recuperação àquelas que já a possuem.
No caso da aposentada Elisabete das Neves Silva, 63, o diagnóstico veio no ano de 2013 – e foi aí que se iniciou a batalha. “Mesmo estando em dia com os meus exames, eu mesma, com minhas mãos, apalpando a mama esquerda, senti um nódulo e logo procurei um médico mastologista. Fui diagnosticada após uma biópsia mamária, com um câncer que evolui um pouco mais rápido e seu prognóstico não é tão promissor, necessitava de uma intervenção imediata”, relembra. No início, ela se recorda que a descoberta não foi nada confortável. “É uma palavra difícil de assimilar, absorver e aceitar, o câncer ecoou para mim o som da morte, do fim. Ao sair do consultório com o diagnóstico, chorei muito”, conta.
Para a pedagoga Regina Moore, 46, a doença surgiu neste ano, no mês de julho. “No banho, fazendo o auto-exame, notei um caroço duro de uns três centímetros, de formato irregular, indolor. Dois meses antes, tinha perdido 14 quilos sem fazer dieta ou exercícios, já comecei a desconfiar que algo estava errado. Na mesma semana, fiz a mamografia e já foi pedido uma biopsia, onde foi constatado carcinoma invasivo (câncer de mama que se disseminou para o tecido mamário adjacente)”, diz, afirmando que a notícia chegou como uma bomba. “Fiquei em estado de choque, parecia que não era comigo. A primeira coisa que me veio à mente: eu vou morrer, não sou forte pra lutar contra essa doença”, fala. Em menos de um mês, fez todos exames preparatórios e, em seguida, realizou a cirurgia.
Na engenheira civil e de segurança do trabalho Sylmara Pereira, 38, a doença apareceu antes que ela completasse 35 anos. Na época, estava se preparando para engravidar novamente, pois tinha tido uma gravidez ectópica (gravidez na trompa). “Sempre fiz meus exames ginecológicos anualmente e, no início do ano de 2015, percebi um caroço na minha mama direita. Fui ao médico e informei essa minha preocupação, porém a profissional me tranquilizou dizendo que era ‘leite empedrado’. Os meses foram passando e fui percebendo que o tal caroço foi aumentando. Em maio, no mesmo ano, procurei a medicina ocupacional da empresa que eu trabalhava e pedi à médica que me examinasse. Para a minha surpresa, após o exame de ultrassonografia e mamografia, ficou constatado que eu estava com um nódulo na mama e necessitaria de biópsia para confirmar o diagnóstico”, recorda-se.
A partir desse momento, procurou um especialista, que solicitou biópsia e outros exames que confirmariam o diagnóstico que já suspeitava. “Foi no início do mês de julho, 15 dias antes do meu aniversário, que recebi a temível notícia: estava com câncer de mama invasivo com 7,5 cm e necessitava iniciar o tratamento com urgência para que obtivesse a cura”, conta.
Elisabete e Sylmara já estão curadas, mas seguem fazendo acompanhamento médico para prevenção e Regina ainda está em processo terapêutico. O tratamento enfrentado por todas é bastante intensivo. Elisabete passou por uma cirurgia chamada quadrantectomia, um caso particular de mastectomia, em que só se remove um quarto da mama, retirando o tumor, uma parte do tecido normal que o envolve e o tecido que recobre o peito abaixo do tumor. Apesar do susto inicial, o procedimento foi um sucesso. Logo após, vieram 15 sessões de quimioterapia e 30 de radioterapia, acompanhadas de crises de ansiedade, pânico e depressão – todas superadas.
Regina também foi submetida à cirurgia de retirada de um quadrante na frente da mama esquerda com carcinoma invasivo e um embaixo do braço com linfonodo sentinela (o primeiro linfonodo a receber as células cancerígenas de um tumor). “Também fiz a implantação de um Port Cath, onde o médico vascular coloca um cateter que vai do pescoço pela veia aorta até o coração. Isso foi preciso por minhas veias serem muito finas e para facilitar a administração da quimioterapia e outros medicamentos”, completa. Agora, ela segue com as sessões de quimioterapia, 16, ao total, e mais 30 de radioterapia. Em seguida, virá a reconstrução mamária.
Sylmara enfrentou 16 sessões de quimioterapia com diversos efeitos colaterais e depois realizou a mastectomia radical (cirurgia em que se remove toda a mama, os linfonodos axilares e os músculos peitorais), radioterapia, quimioterapia oral e, neste ano, outra cirurgia, desta vez, para reposicionamento da prótese.
Mais do que enfrentar uma verdadeira maratona de tratamentos – que pode variar entre cirurgias, quimioterapia, radioterapia e bloqueio hormonal – as pacientes têm de lidar com as emoções, a queda da autoestima e, claro, a saúde fragilizada. “A jornada de um tratamento para o câncer é desafiadora desde o diagnóstico. O impacto negativo da notícia, a reorganização do dia a dia para conciliar a rotina de hospital, os efeitos adversos do tratamento, controlar o emocional porque causa uma verdadeira reviravolta na vida - só quem está passando ou já passou sabe. O paciente tem que entender as novas circunstâncias de sua vida para realizar um tratamento da forma menos dolorosa, sem desanimar, respeitando os limites que o corpo impõe”, comenta a aposentada.
“Desde o dia do diagnóstico, à cirurgia e o tratamento, é muito sofrido. Seu psicológico fica muito afetado com tudo. A fase mais difícil tem sido a da quimioterapia e suas reações. Passo dias com enjoo e sem comer, tenho muito cansaço, mas acho que o pior foi ver meu cabelo cair todo. Isso mexe com a vaidade de qualquer mulher”, pondera Regina, cujo tratamento deve ser encerrado em março de 2019.
“O tratamento foi muito difícil, com diversos efeitos colaterais como perda de cabelo, de ânimo e vitalidade, mas tudo isso faz parte: queda da imunidade, os enjoos, fraqueza, etc”, relata Sylmara, afirmando que, para ela, a fase mais desafiadora foi a descoberta. “Aceitar a doença como um crescimento de vida, crescimento na fé, deixar a vaidade de lado e me redescobrir como mãe, mulher e amiga. Eu pensava no meu filho, que na época estava com cinco anos. Como iria explicar pra ele que estava doente, que perderia meu cabelo, que ficaria a maior parte do tempo deitada, sem forças e sem ânimo pra nada? Primeiro, eu precisava aceitar a doença e querer enfrentá-la”, observa a engenheira.
Apesar dos desafios, elas conseguiram encontrar forças para saírem vitoriosas nessa trajetória. “Tive que fortalecer mais minha espiritualidade, saber que realmente Deus tem cuidado de mim e acreditar que, sim, posso obter minha cura através da oração. Também o apoio emocional da minha família e o carinho dos meus amigos têm sido de grande encorajamento nesse momento difícil. Acreditar que hoje a medicina está tão avançada nessa área e a assistência do profissionalismo dos meus médicos me fez sentir segura. Também pensar que 80% depende do meu otimismo, da minha vontade de viver, da minha capacidade de lidar com o problema e 20% do tratamento médico e seguir à risca todas as recomendações e restrições que o tratamento causa”, pontua Regina.
“Meu marido, meu filho, minha família, meus médicos e meus amigos me ajudaram a manter-me confiante e otimista para vencer a doença. Os tratamentos, hoje em dia, estão bem avançados. Os médicos oncologistas são altamente humanizados. Me sentia amada e importante para eles. Isso faz toda a diferença. Eu não era mais um prontuário, era uma vida que eles estavam dispostos a fazer tudo para salvarem. Claro que a minha fé ficou mais fortalecida, pois acredito que se Deus permitiu que essa doença entrasse na minha vida, ele iria me ajudar. Não tive dúvida disso”, fala Sylmara.
Para enfrentar os altos e baixos do câncer, Elisabete apostou na confiança – dica que dá àquelas que hoje estão na mesma luta que ela já venceu. “Não esqueça que tudo é passageiro. Sempre faça planos, viaje, passeie, baile, chore. Eu chorava muito, o suficiente para lavar a alma, esquecer da dieta e comer meu prato predileto, sempre fazendo atividades que acalmam e relaxam”, entrega.
Mas afinal, além de uma nova chance de viver, o que o câncer trouxe a essas corajosas mulheres? “Aprendi a valorizar cada minuto da minha vida, viver cada dia de uma vez sem tantas ansiedades. A agradecer mais do que pedir a Deus. A perceber quem realmente são meus amigos verdadeiros e quem realmente me ama. Também aprendi a tirar tempo pra cuidar da minha saúde e a me alimentar melhor”, reflete Regina, deixando sua mensagem às milhares de outras vítimas do câncer de mama que passam pelo delicado tratamento. “O câncer não é um decreto de morte, mas sim um convite à vida. Eu aceitei esse convite e vou lutar com todas as minhas forças pra viver. Não tenham medo de enfrentar um diagnóstico negativo, pois hoje, existem muitos tratamentos e a cura é certa. Se cuidem, pois o bem mais precioso que temos hoje é nossa saúde”, conclui.
“Quando se passa por algo assim, a vida ganha outra dimensão. Fui tomada por uma serenidade que me fez ver o quão fácil é viver e que só a felicidade e o amor importam, a vida fica leve, os problemas não existem mais - se é que um dia existiram de verdade. Enfrentar uma doença como o câncer nos torna mais humanos, mais tolerantes. Veja que sorte tive! Uma equipe médica fantástica, remédios que fizeram o efeito esperado, família e amigos incríveis. Foi tanto carinho, tanto apoio, tanto companheirismo, mensagens, orações. Essa vitória eu devo a eles”, declara Elisabete, afirmando que o câncer lhe trouxe ensinamentos preciosos. “Hoje estou curada, optei por viver. Sabia que dentro de mim havia um ‘gigante’ tentando me derrubar, precisava me defender. Meu próprio corpo, mesmo debilitado e enfraquecido, exigia essa reação. Foi quando descobri um outro ‘gigante’ ainda maior que em mim também habitava. Sem ele era impossível vencer. Seu nome era Fé”, finaliza.
“O câncer me ensinou que não podemos deixar para amanhã o que podemos fazer hoje. Viver o hoje, um dia de cada vez, pois amanhã pode ser diferente do que sonhamos ou planejamos. Me ensinou a amar mais as pessoas, a agradecer todos os dias o dom da vida. Todos nós podemos fazer a diferença na vida de outras pessoas, seja com um sorriso, uma oração, um gesto fraterno. Ajudar outras pessoas, conhecer seus sonhos, encorajá-las a enfrentar esse mundo tão difícil, ser testemunho vivo de fé e coragem”, revela Sylmara, que mudou de vida após a doença, deixando a ascensão profissional para outro momento e se dedicando mais à família. Hoje, após vencer o câncer e as incertezas trazidas por ele, deixa seu apoio àquelas que estão passando pela mesma situação vivenciada – e vencida – por ela. “Não desistam! Por mais difícil que possa parecer, enfrente a situação de cabeça erguida. Tenha coragem de deixar a vaidade de lado e assumir quem você é realmente. Livre-se dos rótulos. Permita-se viver em sua plenitude, como se fosse a última vez, com sabedoria, força, fé e coragem! Isso faz toda a diferença”, encerra.
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