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SUB-VERSÃO

ORELHA

 

Foto: Reprodução/Internet

Eu sei, meus passos já não eram tão velozes quanto antes, quando brincávamos. A vista também andava meio embaçada e por isso já não conseguia mais acompanhar seus gestos rápidos. Meu corpo, mais pesado que antes, doía um pouco todo dia, principalmente ao acordar. A bexiga parecia ter diminuído de tamanho... Xixi toda hora.

A velhice chegara, afinal.

E por que sou um velhinho consciente, saía todas as manhãs para minha caminhada. Papai do Céu foi muito generoso comigo me trazendo pra cá, pra perto do mar e de pessoas que me amam e cuidam de mim. Amor é cuidado.

Um petisquinho aqui, outro ali, meu corpo alimentado por eles e minha alma pelo sorriso das crianças ao me verem. Talvez elas me enxerguem como um vovozinho simpático, talvez elas me vejam mais como um amigo, não sei. O que sei é que nossos encontros quase sempre rendem muitos sorrisos, e se vindos de crianças, são os mais sinceros. Bastava falar com uma vozinha mais fina e eu logo abaixava as orelhas e me deitava para receber carinho na minha barriguinha.

Não posso reclamar dessa minha breve vida, vi e vivi tantas coisas, que só a lembrança delas já devolve um sorriso tímido ao meu semblante cansado. Mais ou menos como quando eles estão ao celular e recebem uma mensagem engraçada ou romântica. Eu sei, sou observador, estou sempre reparando nas expressões deles, os humanos.

E naquele dia, elas pareciam tão amigáveis... Achei mesmo que queriam brincar. No minuto seguinte, estranhei um pouco o teor da brincadeira. Depois, vi a crueldade em seus olhos. Não, eles não queriam brincar, mas notei que estavam se divertindo.

Como disse no início, já não tenho mais os mesmos reflexos rápidos de antes, como ia me defender? Eu nem sabia que precisaria um dia me defender deles... Os humanos sempre foram tão amorosos comigo, afinal. Seriam aqueles quatro uma espécie diferente de gente? Não sei...

Só sei que doeu muito, principalmente minha cabeça. Senti-a inchando, como se fosse cheia de algum material que eu não reconhecia. Sangue? Eu desconheço muitas coisas, inclusive a natureza da violência gratuita daqueles “meninos”. Eu nunca lhes fiz mal algum... Não entendo.

Foram momentos de tamanha aflição que nem sei explicar. Enquanto era espancado, tentava me lembrar de coisas boas. Lembrei do cheiro da ração e do calor do sol aquecendo meus pelos embranquecidos pelo tempo. Lembrei do tempo em que eu corria por essa praia inteira sem me cansar, das partidas de futebol, do salgado do mar e de como meu pelo fica depois de um banho nele.

Minha breve vida de cachorro passou em relances pelos meus olhos. Até que o vi chegando.

Venha, meu querido, vou levá-lo para descansar – ele disse, com a amabilidade que só poderia vir de um ser humano diferente daqueles outros.

E me carregou dali. Francisco era seu nome; o deles, eu nunca saberei, não os conheço. Mas se me fosse permitido fazer-lhes apenas uma pergunta, ela seria: Que tipo de ser humano vocês são?

***

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