Às vésperas do Natal de 2021, a plataforma de streaming Netflix fez o lançamento do filme “Não olhe para cima”, gerando vários debates, sobretudo nas redes sociais. A história poderia ser apenas uma obra de ficção, se não trouxesse algumas semelhanças com a realidade atual. No longa, dois cientistas descobrem que um meteoro vem em direção à Terra, cuja destruição é inevitável se nada for feito para impedi-lo. A partir disso, eles correm contra o tempo para alertar toda a humanidade sobre a descoberta, recorrendo à imprensa e autoridades para auxilia-los nessa tarefa.
A intenção do filme, escrito antes da pandemia de Covid-19, era fazer um alerta sobre a falta de atenção aos problemas climáticos, ou mesmo a recusa em reconhecê-los, como o aquecimento global, por exemplo, o que poderá levar à extinção de toda forma de vida no planeta Terra (ou grande parte dela).
Quando “a vida imita a arte e a arte imita a vida”, o choque de realidade permite fazer analogias para além do que foi proposto pela ficção, em especial, no caso brasileiro. A distopia na qual nos encontramos parece ter criado uma realidade paralela, onde “a Terra é plana” e o absurdo, inimaginável, inacreditável se naturaliza, passa a ser normal, aceitável e tem credibilidade. Como cantou Cássia Eller: “O que está acontecendo? O mundo está ao contrário e ninguém reparou”?
Desde o início da pandemia de Covid-19, tem sido uma luta diária a sobrevivência em nosso país. Não só em razão da precarização das condições de vida, devido às fragilidades das relações de trabalho, subemprego, aumento da fome, pobreza, queda ou ausência de renda, trabalho e moradia. Mas, em especial, ao enfrentamento da pandemia em si; ao modo como o governo tem lidado com o vírus: de gripezinha ao descrédito da ciência; do negacionismo diário à constituição de um “ministério paralelo”, como denunciado na CPI da Covid; da ausência de um plano nacional de enfrentamento à pandemia à presença de um órgão oficial, no caso o Ministério da Saúde, de costas para doença, incapaz sequer de monitorar seu estágio e fomentar estratégias de promoção, proteção e recuperação da saúde, preconizada pela sua própria política pública.
Desde o princípio, a luta não era (e ainda não é) somente contra o vírus. Assim como no filme, a ciência não é levada a sério e as pessoas desconfiam do que as pesquisam revelam. O “ode a ignorância” cria, assim, uma massa – em parte por influencers, coaches, (sub)celebridades ou mesmo pelo “cidadão de bem” – capaz de emitir sua opinião sobre tudo, por vezes baseada em preceitos religiosos, crenças pessoais, experiências de vida, sem qualquer fundamentação teórica, metodológica, ética, técnica ou científica, cuja narrativa ganha vida própria, em especial, nas redes sociais e aplicativos de conversa, se alastra e trata como verdade o que, de fato, é falso, ou uma “fake news”.
Ciência não é dogma; uma crença acima do bem e do mal; inspirada num ser iluminado. A construção de conhecimento só é possível com (muito) investimento: financeiro, em materiais, maquinários, insumos, recursos humanos, formação qualificada, baseada em rígidos protocolos éticos... Algo que a coloque como campo essencial do desenvolvimento político, econômico e social de um país. Seu produto é plausível de revisões, assim como tem ocorrido diante da pandemia, permitindo avanços junto a sociedade.
O atual presidente brasileiro nunca escondeu seu desprezo pela ciência. Sob sua chancela a última cartada do Ministério da Saúde, ao fazer consulta pública para dificultar a vacinação infantil, evidencia isso. Nossa situação só não é pior, graças ao longínquo trabalho realizado pelo SUS, cujos protocolos de imunização, mundialmente reconhecidos, alcançam e têm adesão inclusive de quem é pró-governo.
E, ainda, como se ainda não bastasse toda essa rejeição no trato à pandemia, sua atuação vai na contramão do desenvolvimento técnico e cientifico do país, cujos produtos contribuiriam sobremaneira para o bem-estar da própria sociedade. É lastimável a situação dos órgãos de fomento à pesquisa, com cortes no orçamento público e em bolsas de pesquisa, paralisação ou cancelamento de trabalhos em andamento, fuga de cientistas para outros países, atrasos, perdas e retrocessos...
É este o “novo normal”??? Não é “normal” crer no que convém! Ainda que em frangalhos, a ciência continuará seu trabalho, insistindo que as pessoas olhem para cima e para todos os lados!
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Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.
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Ana Maria Ramos Estevão , Segunda, 17 de Janeiro de 2022
Adoro ler a coluna da Gisele. Lúcida, bem escrita e do lado bom da humanidade! Orgulho-me de ter sido sua professora.