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SUB-VERSÃO

Oitenta vezes oito

Nesse Brasil de eterna senzala, só mesmo a Casa Grande é blindada. Os enganos nunca batem à sua porta, mas chegam aos pontapés nas portas dos barracos.

Aqui, um branco portando um guarda-chuva é só um branco portando um guarda-chuva. Já um negro portando um guarda-chuva é, na ótica distorcida e esquizofrênica dos brancos e negros fardados, uma ameaça, um marginal portando uma arma letal. Parece fácil de confundir, não é? É muito claro que não se trata de confusão. Nesse país cafuzo, o preconceito os acompanha desde o nascimento e já vem junto da sentença de morte.

Nascer negro no Brasil é perigoso, agora, nascer negro e pobre é sentença de morte na certa, porque se não os matam de fome, os matam fuzilados. Apenas as armas é que diferem, as mãos, as mãos são sempre as mesmas. E há muitas mãos sujas de sangue negro nesse país. Mãos brancas.

Oitenta tiros por engano. Malditos sejam os homens brancos a quem a cor e o poder desumanizaram.

Maldita seja a mira míope dos homens por trás das fardas. Maldito mil vezes seja o homem cuja boca vomita a ordem do tiro. Capitães-do-mato pós-modernos, suor e sangue mato a dentro, morro a dentro.

A perseguição segue insana, autorizada. Não, eles não são livres!

Oitenta vezes chamado de preto imundo, oitenta chibatadas, oitenta gritos silenciados, oitenta filhos bastardos, oitenta corpos negros violados, oitenta repetidas vezes... Oitenta tiros! Nem uma nota de pesar oficial.

Que seu deus branco os perdoe, oitenta vezes oito. Que todo pranto negro encontre consolo no colo de seus orixás. E que finalmente venha o dia em que sejamos negros e brancos apenas humanos!

Oitenta, oitenta tiros por engano!

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