O Festival Arte Serrinha é um dos mais consolidados e reconhecidos do cenário cultural nacional. Há 20 anos, realiza atividades que unem arte, cultura e natureza na zona rural de Bragança Paulista e, agora, ocupa o Centro Cultural Teatro Carlos Gomes com parte dessa história, em uma exposição de artes visuais que abre às 15h do próximo sábado, 16, e fica até o dia 25 de novembro.
A exposição promete ser um marco, não apenas para o Arte Serrinha, que tem a oportunidade de celebrar suas duas décadas neste momento em que o setor cultural volta a se restabelecer. Mas, também, ao próprio Centro Cultural, que abriu as portas em meio à pandemia e agora pode viabilizar essa celebração recebendo a primeira exposição de grande porte que trará inúmeras obras, muitas de artistas de visibilidade internacional. Sem falar do público, que terá a possibilidade de contemplar, em um único espaço, instalações, fotografias, pinturas, videoinstalações e também documentações, que representam um pouco dos últimos 20 anos da produção de Arte Contemporânea no país.
Idealizador e curador do festival e da exposição, o artista plástico Fábio Del-duque conversou com o Jornal Em Dia e contou como ele, ao lado do amigo Carlos Oliveira, do Galpão Busca Vida, e do irmão Marcelo Delduque, responsável pela recuperação ambiental da Fazenda Serrinha, local que sedia o evento, conseguiram, juntos, criar esse espaço que produz e oferece experimentação artística e promove encontros e trocas entre pessoas e a natureza.

Nascido em São Paulo, Fábio convivia com Bra-gança desde a infância, quando vinha, aos finais de semana, para a fazenda da família, que fica no Bairro da Serrinha, próximo à Água Comprida e à represa. Nos anos 1980, já recebia, ali, alguns dos artistas que são pilares do festival, como Bené Fonteles e Luiz Her-mano. No começo dos anos 2000, quando o Arte Serri-nha teve início, já tinha uma bagagem profissional que possibilitou dar início ao sonho que compartilhava com o amigo e o irmão. Ao longo de sua trajetória atuando em direção artística, Fábio trabalhou com nomes como Elba Ramalho, Ney Mato-grosso, Paulinho Moska e José Possi Neto. Essa aproximação foi fundamental para conseguir agregar tanta potência ao festival. “Ser artista é meio que uma missão. O festival surgiu dos desejos de vida, não só meus, mas dessa turma que começou isso. Eu fui conhecendo gente de todas as áreas e criando um vasto repertório de parceiros e amigos com os quais eu iniciei o festival. Ele começou bastante focado em artes visuais e música, que eram justamente a vocação da Fazenda Serrinha e do Galpão Busca Vida”, lembra.
O Arte Serrinha, assim como a maioria dos projetos culturais dentro e fora de Bragança, conseguiu se manter ativo, ao longo dos anos, graças a leis de incentivo, como a Rouanet, federal, e o ProAc, estadual. “Essas leis são instrumentos importantíssimos para a realização desse tipo de evento, que não tem o lucro como principal objetivo. E o festival sempre foi um projeto independente e, por isso, teve grandes dificuldades, principalmente no início. Tiemos uma parceria com a Prefeitura, a partir do 1º e 2º festivais, uma parceria que depois se manteve, de maneira colaborativa. Fizemos eventos em conjunto, como o show do Ney Matogrosso, no Lago, em 2013. Em outra ocasião, fizemos um Circuito Serrinha na cidade, em que trouxemos instalações de arte. É como agora, nessa parceria da exposição, que estamos fazendo junto com a Secretaria de Cultura. Mesmo assim, sempre tivemos uma independência, o que é importante em relação à liberdade de criar. Temos um projeto educativo e artístico em que o que nos interessa é contribuir para uma sociedade mais crítica e informada. Sempre tivemos interesse pela pluralidade de pensamentos, e por aprender com a diversidade e com as diferentes culturas”, avalia.

Com o passar do tempo, as ações no local se ampliaram para além do próprio festival, que acontece no mês de julho. Um exemplo é o Parque Natural, formado pelas esculturas e instalações artísticas espalhadas pelo território da Fazenda. “Muitas das obras do parque foram criadas durante os festivais e que ficaram como legado. Hoje, o Parque Natural Arte Serrinha é de extrema importância para tudo o que fazemos aqui, para toda a parte educativa que envolve o projeto da Serrinha. Temos uma ligação muito grande com as escolas do entorno. Em alguns momentos, neste tempo de atuação, conseguimos fazer projetos educativos para receber escolas de mais de 20 municípios”, conta.
O Parque Natural Arte Serrinha é uma área da Fazenda reconhecida como reserva ecológica particular. As obras que compõem o parque são trabalhos que, por ocuparem a paisagem, ampliam as possibilidades de percepção estética e se abrem a relações múltiplas de interação com as pessoas e o entorno. Já o Educativo, cujo projeto se chama Encontros com a Paisagem, promove visitas a grupos escolares e de organizações sociais à Fazenda Serrinha, a partir de caminhadas, experimentos poéticos e oficinas de arte.
Além disso, durante os dias em que acontece o festival, um núcleo de arte-educação atua diretamente com a comunidade da Água Comprida, em parceria com a paróquia do bairro e com a Escola Bruno Florenzano.

“Estamos trazendo artistas importantes, que participam de bienais internacionais e de grandes exposições pelo mundo. Muitos deles já vieram dar oficina ou realizar algum trabalho na Serrinha, mas é a primeira vez que estamos expondo tantos artistas contemporâneos juntos, em Bragança. Essa condição também é possível pelo Centro Cultural, um equipamento importantíssimo para o município. Finalmente, temos um espaço para uma exposição como essa. Espero que a Serrinha também contribua no sentido de trazer uma exposição que vem com uma ótima qualidade de artistas, de montagem. Vamos ter obras de arte, mas também muita documentação, entre materiais gráficos, matérias de jornal, documentos. Tudo isso vai estar exposto em painéis e vitrines. Algumas das obras são instalações, uma prática que temos na Serrinha mas que não é costume em Bragança, então será uma oportunidade para o público interagir com esse tipo de obra, que só seria possível em uma capital, em um museu de arte ou em uma Bienal, mas que estarão em Bragança”, fala Fábio.
Os artistas que participam da exposição são: Aguilar, Ana Paula Oliveira, André Pitombo, Ayrson Heráclito, Bené Fonteles, Bia Raposo, Caio Reisewitz, Cassio Vasconcellos, Charles Paixão, Coletivo Bijari, Dudi Maia Rosa, Edith Derdyk, Eduardo Srur, Fabio Delduque, Fajardo, Fernanda Zerbini, Fernando Limberger, Gal Oppido. Hilton Mercadante, Hugo França, Jean Paul Ganem, José Spaniol, Laura Gorski, Laura Vinci, Leda Catunda, Lucas Bambozzi, Luiz Braga, Luiz Hermano, Manuela Romeiro, Marcelo Delduque, Marcelo Zocchio, Marcos Amaro, Matias Espacial Picón, Michelangelo Pistoletto, Rochelle Costi, Rodrigo Braga, Rodrigo Bueno, Shel Almeida, Stela Barbieri.
Marta Porto, que fez o texto de apresentação da exposição, analisa que a analogia que o Arte Serrinha oferece é “da natureza como obra de arte e do processo artístico como invenção da natureza”. E conclui: “Em um país caindo aos pedaços, que hoje busca nos escombros suas múltiplas identidades e saídas possíveis, celebrar os 20 anos do Festival Arte Serrinha é uma afirmação de possibilidades. Pois, no aqui e agora, mais do que resistir, é preciso plantar as sementes para crer em outros futuros e é esta visão que esse festival vem cumprindo a cada ano”.
Para Fábio, esses foram apenas os “primeiros 20 anos”, porque o Arte Serrinha ainda tem muito o que produzir.

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