Certa vez, o escritor uruguaio Eduardo Galeano escreveu algo que ficou eternizado no livro póstumo “O caçador de histórias”, dizia o autor: “Em algum lugar de alguma selva, alguém comentou: ‘Como os civilizados são esquisitos. Todos têm relógio e ninguém tem tempo’”.
Tempo que está cada vez mais escasso nas selvas de pedras, onde as pessoas levam horas em locomoção; que anda cada vez mais veloz, consumido pelo ritmo frenético da modernidade, em que o tempo não para, mas as pessoas, por vezes, estão paradas no tempo; e que pode, paradoxalmente, parecer eterno se vivido – ou sobrevivido – em condições adversas, como sob o governo do ex-presidente do país, como discursou Chico Buarque recentemente em Portugal ao receber o Prêmio Camões – importante reconhecimento literário instituído pelos governos de Portugal e do Brasil.
Disse o compositor popular: “Quatro anos, com uma pandemia no meio, davam às vezes a impressão de que um tempo bem mais longo havia transcorrido. [...] quatro anos de um governo funesto duraram uma eternidade, porque foi um tempo em que o tempo parecia andar para trás”.
E pode andar para trás sim – como tem andado – e imprimir retrocessos significativos, como, entre outros, os recuos vivenciados no país desde a Reforma Trabalhista de 2017, a qual trazia o discurso sedutor de que a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), de 1943, precisava se adequar aos novos tempos, o que na prática se traduz na retirada de direitos da classe trabalhadora e no aprimoramento de novas táticas para explorá-la.
Hoje, temos um mar de pessoas que vivem dos trabalhos por aplicativos, por exemplo – ou empreendedores, como o sistema capitalista costuma referenciar – que estão, em grande medida, fora dos braços do sistema previdenciário. Cidadãs e cidadãos que face a alguma eventualidade – doenças, acidentes, maternidade entre outras – não contam com a proteção do Estado e ficam à mercê de suas próprias condições para enfrentar a situação vivenciada.
Trabalho intensificado que leva as pessoas a dez, doze horas de atividades ininterruptas, como meio de garantir a sobrevivência diária, já que o ganho é por quantidade, quase sempre muito baixo e precisa ser multiplicado para suprir o mínimo que se faz necessário.
Trabalho no mundo moderno que aprisiona seus trabalhadores à vida cibernética – não só quem vive dos aplicativos, mas a classe que vive do trabalho como um todo – em que o tempo de não trabalho é cada vez mais restrito ou inexistente; em que não é permitido viver “o direito a preguiça”, como descreveu o escritor cubano Paul Lafargue, porque não há tempo de sobra...
Nem tempo para ver a vida passar, ver os filhos cresceram e construir as memórias afetivas; sentar num canto qualquer e jogar conversa longe, acompanhado de boas companhias; viajar nas páginas de um livro que nos leve a mundos distantes, talvez com finais mais felizes do que muitas vezes vivemos; poder dançar, correr, passear ou simplesmente ficar na preguiça – sem peso na consciência ou cobranças infundadas ou reais – porque o tempo permite.
Em tempo e a tempo, o primeiro de maio que se aproxima nos convoca a lutar pela Revogação da Reforma Trabalhista. É urgente e necessário recompor condições dignas de trabalho e recuperar os direitos perdidos, para que a vida não se resuma a viver para o trabalho, porque não há tempo para mais nada.
Revogar sim, porque – literalmente – não se deseja morrer trabalhando, tanto em razão do trabalho vivido até os últimos dias de vida, cuja ausência de renda não permite outra alternativa; quanto pela oferta de salários incapazes de atender as necessidades básicas de subsistência, o que por vezes, empurra o cidadão a duas ou três jornadas de trabalho; ou ainda pela exaustão de horas quase infinitas de atividades, que sugam até o fim as energias do corpo, face a intensa carga horária de trabalho que o empreendedor, ops, o trabalhador moderno está submetido.
É, talvez não sejamos ainda tão civilizados assim, mas o tempo está passando!
Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo
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