No mundo ocidental, estamos acostumados a seguir o calendário gregoriano, começando oficialmente o ano fiscal e laboral em janeiro – exceção feita ao Brasil, onde tudo tem início somente após o Carnaval, época esta em que os patrões dão uma pausa nas chibatadas para cair na folia.
No Japão, as chibatadas também existem (e como!), mas somente têm o seu início no mês de abril. Empregos, novas regras, novos impostos, aumento de preços, enfim, tudo o que representar uma mudança de etapa terá sua contagem feita a partir do quarto mês do ano. E por que abril? A explicação para tal data é motivo de divergência entre os historiadores, mas uma corrente com grande possibilidade de acerto refere-se à colheita do arroz no outono. Como no inverno subsequente o trabalho costumava ser suspenso, os agricultores japoneses somente poderiam retomar as atividades – e consequentemente pagar os seus impostos – na estação da primavera (ou seja: de março para abril).
De modo que, no Japão, abril é tradicionalmente o mês da retomada. E isso inclui logicamente as relações de trabalho, conforme mencionei acima. E aí vai um dado triste sobre esse calendário laboral. Assim como abril é tempo de esperanças, com um novo emprego ou uma renovação de contrato, março vem trazendo consigo o fantasma da demissão. Uma assombração que faz com que o número de deprimidos (e, infelizmente, de suicidas, um problema grave no país) também cresça nesse período de transição. Uma fase macabra, enfim, que voltará se repetir em outubro, quando novamente a alma japonesa é desafiada, desta vez pelo melancólico outono (que, aliás, também traz ondas de demissões).
Mas basta de melancolia, e vamos falar de flores! Pois, afinal de contas, a virada de março para abril também é o tempo das belas sakuras, ou seja, das flores de cerejeira. Apesar de que, em 2023, essa transição entre os referidos meses acabou sendo estranhamente um período de chuvas: o que, por sua vez, fez com que as flores da cerejeira “caíssem” mais cedo. Uma pena, considerando que, após três anos de uma pandemia que nos engessou a todos, as famílias teriam a oportunidade de desfrutar novamente desse maravilhoso espetáculo da natureza.
De minha parte, mantenho a esperança de que, apesar das eventuais chuvas, abril também será de boas novas: para o Japão e o mundo inteiro, hoje cambaleando, agonizante... castigado por guerras, fome, doenças (incluindo o ódio nas redes sociais) e outras mazelas oriundas de nosso egoísmo. Sim, que abril “abra” as portas de felicidade, da paz e da união em nossas vidas. Ao som dos passarinhos.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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