Do final do século XIX até meados do século XX, a família de minha esposa, pelo lado paterno, foi proprietária de uma estalagem (pousada) na cidade japonesa de Matsusaka, localizada próximo a Osaka e Quioto. Quem nos contou isso foi o meu sogro, que, optando pela carreira de professor universitário, decidiu não seguir com a empresa familiar. Mas, segundo ele, no tempo em que visitou a estalagem para ajudar os avós, conheceu tipos interessantíssimos das eras Taishô e Shôwa, que, juntas, compõem no Japão a virada do século XIX para o XX. Um destes tipos meu sogro não o conheceu diretamente; mas seus avós, sim: trata-se do lendário gângster Shimizu Jirocho (1820-1893), que, no final da vida, passou a ser conhecido como o “Robin Hood Japonês”.
A bisavó de minha esposa era ainda uma criança na época em que o temível Shimizu hospedou-se na pousada; mas, pelo que ela contou aos descendentes, o gângster era gentil e atencioso. Tanto que ela, em sua inocência infantil, costumava chamá-lo de “Chogô”, uma abreviação do verdadeiro nome de Shimizu, que era “Chogorô Yamamoto”. Obviamente que, na hora de defender os seus interesses, Shimizu não hesitava em matar seus inimigos – afinal, se fosse apenas um doce de pessoa não chegaria à posição que alcançou: a de maior chefe da Yakuza na região de Tokaido, esta uma longa estrada que liga as duas mais importantes cidades japonesas, economicamente falando: Osaka e Tóquio. Mas, como todo homem de negócios com inteligência, Shimizu sabia usar de carisma diante do povo comum.
E foi assim, unindo carisma e visão de negócios, que Shimizu trouxe progresso às cidades que dominava, melhorando principalmente a vida da gente simples. Por exemplo, ele fez com que a área próxima ao Monte Fuji, antes improdutiva, se tornasse terra propícia para a agricultura: o que possibilitou o cultivo de ciprestes e de trigo; desenvolvendo, consequentemente, o comércio da região. E mais: foi o responsável pela criação das primeiras escolas de Inglês no Japão – o que significa que, se hoje tenho um ganha-pão, agradeço à Yakuza!
E quanto à fama de Robin Hood? Isso se deve ao fato de que Shimizu passava a perna nos mais ricos para ajudar os menos favorecidos. Explica-se: basicamente a riqueza do gângster era oriunda do “jogo ilegal” (não muito diferente, portanto, de outras máfias ao redor do mundo com os seus cassinos, casas de apostas e afins). E quem, na Era Taishô, costumava torrar o dinheiro em jogos? Os endinheirados, claro! Pois bem, o que fazia Shimizu? Com a grana tirada dos “manés” da burguesia japonesa, ele ajudava as famílias mais pobres de sua região.
Uma bondade que, quando chegou a hora, o povo comum soube retribuir com gratidão e respeito; uma vez que, no funeral de Shimizu Jirocho, oito mil pessoas foram às ruas para prestar homenagem àquele que soube lutar, a seu modo, pelo povo sempre esquecido.
Shimizu-san... Banzai!
***
EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Seu mais recente livro publicado – Contos de um Brasil esquecido (2022) – foi finalista do Prêmio Uirapuru. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
0 Comentários