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SUB-VERSÃO

O riso das pedras

Foi um escorregão e tanto, daqueles que quase sempre terminam com a gente batendo as costas no chão, sem ar. Mas não, dessa vez não. Como que por um milagre, parei. Senti um tranco na coluna, provavelmente devido ao esforço de lutar para manter-se ereta e estável. A dor se seguiu por alguns dias, lembrando-me daquele “quase” tombaço.

A rua que conduzia à pousada estava cheia de gente, noite de sábado e de festa junina na mágica São Thomé das Letras. Na hora, nem me preocupei com a plateia, mas que havia, havia.

Só me lembro mesmo de ter ouvido um “Escorregou?”, vindo de uma voz feminina por perto. Não cheguei nem a levantar o rosto, dirigindo o olhar a ela, afinal, cada célula do meu corpo concentrava seus esforços em manter-me em pé, minimamente equilibrada.

Mas outra frase foi a que me chamou mais a atenção, repetida para mim por minha amiga. “Que legal! Ela ri dela mesma!”, frase essa dita pelo companheiro da moça da frase anterior.

Sim, não sei se em parte movida pelo teor alcoólico do generoso copo de quentão da festa, ou se por puro nervosismo ou alívio, eu ri, ri alto um riso autêntico diante de meu escorregão, e continuei em direção à pousada.

Só mais tarde, mais sóbria que risonha, foi que pensei: mas a vida não é isso mesmo? Um constante rir de si mesmo?

E muito mais do que um simples tombo, estamos cercados de situações que nos exigem essa coragem absurda, a de rir de nós mesmos, de nossos erros, acertos inesperados, de nossas frustrações todas.

Viver é tentar, constantemente, parar um tombo iminente, seguido de outro, e outro e outro, e ainda seguir; e rir de todas as tentativas, sejam elas exitosas ou não.

As pedras escorregadias de São Thomé (Ou teria sido meu all star de sola gasta?), as mágicas, incríveis pedras da Montanha Mágica me ensinaram mais uma lição, a de que devo continuar rindo de mim mesma, como uma eterna aprendiz de mim mesma que sou; como uma caminhante, que escolheu trilhar o caminho bonito e perigoso das pedras, ao invés do plano e sem graça do asfalto.

Prestes a chegar aos quarenta anos, pretendo rir muito ainda e agradecer ainda mais do que rir, agradecer à vida e aos tombos que ela nos dá, a São Thomé e à magia pedagógica de suas pedras risonhas.

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