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Olhar Social

O que tem no seu prato?

 

Eis uma boa provação para olharmos com um pouco mais de atenção o que temos no prato. O que estamos consumindo? Quais alimentos fazem parte do nosso cotidiano e quais suas procedências?

Dizem que, com o passar dos anos, nossas papilas degustativas vão se alterando. Algo que eventualmente não consumíamos quando criança, tipo “eu não gosto disso”, hoje não ficamos sem; o contrário também é válido. Mas, para além das mudanças orgânicas processadas por nosso organismo dados os anos vividos, fato é que os alimentos parecem não ser mais os mesmos e não ter o mesmo sabor. Podemos sentir isso ao degustar algo e perceber as mudanças: banana que tem gosto de isopor, tomate que é aguado, mamão que está pálido, cenoura supergigante e por aí vai... tudo isso devido às inúmeras mudanças em seu manuseio, seja pelo uso exacerbado de agrotóxicos ou adoção de hormônios, no caso dos produtos de origem animal, seja ainda pelas transformações genéticas, como os transgênicos etc.

A indústria alimentar brasileira, como um todo – seja de produtos in natura, capitaneada pelo agro, seja dos produtos industrializados – parece não medir esforços em prol de sua rentabilidade. Pouco importa o que de fato contém no alimento, basta uma bela embalagem que camufle sua composição. Chocolate agora nem é mais chocolate mesmo – é alguma massinha bem doce sabor chocolate... Basta observar o que diz a embalagem de alguns produtos.

Um tempo atrás, estava proibido no país o uso de gordura trans nos produtos industrializados, dados os males que esse componente poderia causar à saúde humana e sua total dispensabilidade na composição dos produtos industrializados. Na prática, trata-se de um tipo de gordura que pode ser sim encontrada naturalmente em alimentos de origem animal, como em carnes e produtos lácteos, por exemplo, o que em baixa quantidade não seria um grande problema. No entanto, esse tipo de gordura também pode ser produzido industrialmente, por meio da hidrogenação parcial de óleos vegetais, a fim de ser usada como uma forma de melhorar a textura, sabor e aumentar o prazo de validade de produtos industrializados – isso sim é algo que acende um alerta!

Além do mal que a gordura trans traz à saúde humana – já é reconhecido em estudos científicos que podem levar ao aumento do colesterol LDL (o “colesterol ruim”) e diminuir o colesterol HDL (o “colesterol bom”), bem como elevar o risco de doenças cardíacas, como doenças coronarianas e acidentes vasculares cerebrais (AVC).

É perceptível pelas papilas degustativas o quanto o sabor se altera. Os alimentos podem até ficar mais crocantes e parecer mais saborosos – mesmo porque, via de regra, há tantos ingredientes em sua composição que o produto em consumo parece mesmo uma delícia – mas, na prática, eles podem ter perdido sua essência e não ter nada de nutritivo. Chips de batatinha, por exemplo, podem exemplificar bem isso. Consumimos batata que não é batata de verdade, ou talvez seja algo sabor batata!

E por aí vai...

No horizonte da rentabilidade desenfreada, nossos alimentos – sejam in natura, sejam industrializados – são manuseados ao bel prazer dos interesses das grandes corporações alimentícias, que pouco se importam com o que as pessoas estão consumindo e se terão ou não agravos em sua saúde em razão das tantas alterações sofridas pelos produtos consumidos; o importante mesmo é assegurar sua produção em larga escala e garantir seus lucros...

Eis, portanto, um bom debate a ser pautado e uma pequena provação para que olhemos o que temos em nosso prato, sem nos distrairmos com as embalagens bem bonitas e coloridas, que disfarçam o que de fato há em cada produto!

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.

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