“O correr da vida embrulha tudo. A vida é
assim, esquenta e esfria, aperta e depois afrouxa e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre e amar, no meio da tristeza. Todo caminho da gente é resvaloso, mas cair não prejudica demais. A gente levanta, a gente sabe, a gente volta”.
Guimarães Rosa
Francisco me olhava com o olhar corajosamente compassivo de sempre, aquele mesmo com que devia olhar, de igual para igual, nos olhos dos miseráveis e enfermos de Assis.
E eu me lembrei o quão miseravelmente enferma também me encontro, em minha condição humana.
Sim, eu sofro de algumas enfermidades, peculiares da espécie humana, e que, se não tratadas a tempo, podem tornar-se mortais se atingirem a alma.
Talvez Francisco estivesse lá para me lembrar da urgência da alegria, esse bálsamo gratuito; da simplicidade da vida, quando vivida pelo outro, da singeleza do amor e da beleza oculta em cada uma das criaturinhas do Pai.
Mas, pasmem, nem isso tudo me impede de ficar triste vez por outra, e acho até que Francisco, extremamente humano como era, saberia entender a necessidade da tristeza.
A tristeza nos ensina. Não é professora amorosa, nem gentil, mas nos ensina. Sobretudo, ela ensina-nos a ser feliz mesmo na tristeza. SER feliz, apesar de não ESTAR feliz.
Francisco me lembrou que minha felicidade verdadeira independe do que quer que seja, se ela reside na maravilhosa certeza de ser amada pelo Eterno.
Mas eu confesso, diante de vocês leitores e diante da imagem benevolente de Francisco, que continua me observando na sala de espera do hemonúcleo da USF, onde vim para doar sangue, que há dias em que me permito estar triste, e nesses dias amargos, escuros, tenho que lutar contra mim mesma, contra minha natureza egoísta e auto-piedosa, frágil e mentirosa, e tento me lembrar de quem realmente sou, por trás de títulos bobos e máscaras e protocolos sociais.
E é nessa hora que me reconheço a mais miserável das criaturas. E ainda assim, e isso é o que há de mais bonito e maravilhoso, apesar de toda minha miséria, Ele me ama.
Francisco doou-se tanto, que talvez não tenha tido tempo para tristeza. A alegria de servir a Deus, cuidando de seus pequeninos, devia preencher-lhe a alma de tal forma, que simplesmente não havia espaço para essa usurpadora chamada tristeza. Ele estava pleno de Deus, e então, eu vergonhosamente reconheço que tenho deixado brechas em minha alma.
Você as tem deixado também?
Não, não se culpe tanto assim. Ele sempre soube que falharíamos muito mais vezes do que ousamos supor ou admitir.
Apenas façamos o caminho de volta, tal qual o “poverello” de Assis. E desprovidos do nosso habitual orgulho, reconheçamos que a verdadeira alegria reside no fato de sabermos que nada somos, sem o Cristo de Francisco.
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