Sempre me senti um estranho em meu tempo. Mesmo na juventude, gostava de canções curtidas pelas gerações anteriores – afinal, digam-me se era próprio de um jovem “normal” na década de noventa curtir os “Pholhas”, grupo brasileiro que, cantando em Inglês, fez muito sucesso nos anos setenta? Claro, eu também gostava de bandas como Nirvana, U2 e Tears for Fears, que eram, digamos, mais de acordo com a minha geração. Mas o que fazia mesmo a minha cabeça era a década de setenta (e vale frisar aqui: nasci em 1975).
Enfim, como escrevi, sempre fui um deslocado no tempo. O problema é que, hoje em dia, o que era apenas uma excentricidade nos anos noventa tornou-se uma realidade que acompanha os meus cabelos cada vez mais grisalhos: ou seja, virei definitivamente um dinossauro!
No Japão, tenho alunos de várias idades (mais precisamente, dos três aos oitenta), mas a maioria pertence a uma faixa etária que vai dos quinze aos trinta e cinco anos. E, conversando com eles, todos os dias, fica-me sempre a impressão de que muitos de meus ídolos, se ainda não morreram, hoje estão relegados a uma espécie de limbo da “cultura pop”: o que os torna, consequentemente, completos estranhos para a moderna juventude japonesa.
Outro dia, por exemplo, citei o nome de Johnny Depp, e minha aluna, de dezessete anos, olhou-me com estranheza por um momento até que, finalmente, dando-se conta, disse-me: “Ah, já sei! O pai da Lily-Rose Depp!
Caí para trás! Sei que o Capitão Jack Sparrow tem passado por uma fase difícil, mas ser reconhecido apenas por ser o pai de Lily-Rose...?! Foi um choque, admito!
E, se não fosse pela ressurreição proporcionada por “Top Gun: Maverick”, Tom Cruise também era outro cujo nome costumava causar estranheza toda vez que, por um motivo qualquer, eu o citava para meus jovens alunos.
Claro, é importante ressaltar que estamos falando do Japão: um país que, pelas mais diversas razões, não conheceu muita coisa que fez sucesso no Brasil dos anos oitenta – os Menudos, por exemplo, sorte ou não dos japoneses, por aqui não deram as caras. Roberto Carlos, então? Só o jogador de futebol...
Bem, mas voltando ao gosto musical dos meus jovens estudantes: preciso me atualizar urgentemente se quiser ainda manter um diálogo razoável com os meus pupilos. Aliás, o sucesso por aqui, ao que parece, são os chamados grupos K-Pop, ou, trocando em miúdos, espécies de New Kids on the Block coreanos – putz! Mencionei os New Kids on the Block?... Olha o dinossauro de novo aí, gente!
Portanto, neste ano de 2023, estou decidido: vou modernizar meu gosto musical para não me perder em definitivo dentro do temido túnel do tempo.
Ainda que, na primeira tentativa ontem, após um minuto do grupo coreano BTS, não resisti: corri logo de volta para os Pholhas. There was a place that I lived...
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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