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SUB-VERSÃO

“Ó Pátria amada, Idolatrada, Salve! Salve!”

O sonho dela era ir pra escola, poder aprender como faziam as outras meninas da cidade. Mas o vilarejo ficava muito longe, e além do que, não podia, não, tinha que ajudar no trabalho na lavoura.

Quando não estava ajudando na lavoura, ajudava em casa, a cuidar dos irmãos pequenos. Não tinha tempo para boneca. Não tinha boneca. Boneca era privilégio das meninas da cidade, das filhas dos senhores da terra, que se enfeitam com vestido bonito e laço na cabeça e desfilam feito princesas aos domingos na missa.

Maria não ia à missa. Mas posso afirmar que tinha fé maior que todos aqueles hipócritas juntos. A fé do povo nem sempre vai à igreja, sabe? Quem não tem o que pôr no ofertório, recebe Deus é em casa mesmo, e vez por outra na chuva, que demora, demora, mas visita o sertão de vez em quando.

Maria dizia que a chuva quando vem chegando traz o cheiro de Deus.

Ela não tinha vestido bonito, nem laço, nem tampouco sapatos. Que dirá, perspectivas. No sertão, a gente vive é de promessa e alguma fé. Eu vi essa fé nos olhos dela, logo quando os olhei pela primeira vez. O verde era escandaloso de bonito, e fazia um contraste magnífico com a cor de terra da secura daquele lugar, onde quase nada nasce.

Maria nascera ali, filha do sertão, menina valente como toda gente do sertão, e sobre quem, tenho certeza, Guimarães Rosa escreveria um romance inteiro, tivesse ele olhado no verde daqueles olhos que olhei. Diadorim? Que nada! Maria era a mais bonita flor maltratada desse sertão imenso chamado Brasil.

Mas Maria não sabia ler. Maria nunca leria Guimarães Rosa, apesar de poder servir-lhe de inspiração.

Maria é apenas mais uma esquecida nesse país de canalhas eleitos.

Mas chegou o dia em que a menina, agora já moça, pôde ir pela primeira vez à escola. Um projeto de alfabetização de jovens e adultos finalmente chegara ao seu vilarejo.

E Maria não cabia em si, de felicidade e medo e vergonha, tudo misturado em seu coração, que feito aquela terra ressequida, receberia pela primeira vez, água, água do saber, do saber que liberta o povo de viver eternamente na ignorância que lhes condenaram os poderosos.

Naquele dia, trançou os cabelos, colocou o vestido mais bonito, as chinelas de couro e foi.

E ela foi quilômetros a fio, na estrada que de terra parecia não ter fim, até chegar ao casebre que servia de escola ao projeto.

Para sua surpresa, recebida pela professora, foi informada que, antes da aula, cantariam o Hino Nacional. Maria sentiu o rubor tomar seu rosto esquelético. Ela não sabia cantar o hino, disse à professora, que lhe acalmou, dizendo que era só fingir, que não tinha problema.

Todos perfilados frente à bandeira, começa o hino. Maria sente uma zonzeira, a bandeira roda diante de seus olhos verdes, e com muito custo é que ela se mantém de pé.

Mas quando chega o refrão, para o espanto de todos, não resiste e desmaia.

“Ó Pátria amada, idolatrada,

Salve, salve...”

O corpo esquálido espatifa-se no chão de terra. Os quilômetros de caminhada até a escola, de estômago vazio, fizeram-na perder as forças e a consciência. Não terminou de cantar o hino, ou fingir cantar. Ninguém terminou de cantar o hino aquele dia. E eu, como sua professora, arrependo-me hoje até a alma por tê-la feito passar por isso.

Eu, como professora, me sinto impotente e ultrajada pela hipocrisia maldita desses homens poderosos e sem escrúpulo algum.

Sabem, não se trata de cantar o hino ou não...

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