O pão nosso de cada dia

Era uma manhã linda, tenho certeza disso, apesar de excepcionalmente naquele dia eu não ter prestado a atenção que devia ao dia e à beleza com que o Eterno sempre colore nossas manhãs.

Estava meio aturdida quando cheguei à escola onde leciono. Cumprimentei uns poucos alunos, já ao portão, com meu habitual “Bom dia”, mas ele soou um tanto quanto desanimado naquela manhã.

Ah, eu abomino esse adjetivo “desanimado”, porque, em sua essência, ele significa “sem alma”, e estar sem alma é quase como se sentir vazio de Deus.

Talvez as preocupações, os medos todos, a tristeza, essa usurpadora que vez por outra insiste em querer fazer morada em nós, talvez tudo isso estivesse ocupando muito espaço em mim naquela manhã, e onde tudo isso habita, não sobra mesmo muito espaço para Ele.

Foi quando, num gesto rápido, desviei meu olhar pro chão, ainda antes de chegar à porta. Logo na entrada da escola há uma árvore. Costumava ir ler com os alunos debaixo de sua generosa sombra. (Preciso retomar esse hábito).

Há uma árvore e, no chão, perto dela, havia duas criaturinhas adoráveis, dois pequenos passarinhos, lindos, como não havia visto ainda por lá, meio amarelados, tranquilos em seu exercício de buscar alimento entre as folhinhas e sobras que cobriam o chão.

E eu parei. Parei por um segundo com as preocupações que me aturdiam e me deixei envolver por aquele espetáculo gratuito e lindo, trivial e tão inspirador. E lembrei-me das palavras da oração de meu Senhor: “O pão nosso de cada dia, nos dai hoje”.

E de repente, foi como se tudo aquilo que me atordoava fosse embora, com um leve e poderoso sopro do Altíssimo.

E me vi como um grácil passarinho, compreendi e relembrei a santa verdade de que não devo estar ansiosa pelo que quer que seja. Era nítido, estava diante dos meus olhos, outrora incrédulos.

Aquele que mantém aos passarinhos, mantém-me também, apesar de toda minha teimosia e insistência em continuar ocupando meus pensamentos e minha alma com preocupações dolorosas e inúteis.

E, por fim, lembrei-me de minha mãe e meu sobrinho, seu netinho amado, a quem ela ensinou a alimentar os pardaizinhos que visitam nossa casa toda manhã.

Dotado da santa inocência que só os pequeninos têm, talvez Lucas já tenha compreendido “O pão nosso de cada dia” em sua essência. Ele tem dentro de seu coração de menino a certeza de que todo dia, a cada novo dia, o passarinho virá buscar seu pãozinho, sem pressa, angústia, ansiedade ou medo.

E cada vez que ele aponta pro muro, onde sua avó amorosa deposita o pão de cada dia de seu amiguinho alado, e diz, em alto e bom tom: “Pão!”, certamente, meu Senhor sorri e, carinhosamente, pede mais uma vez: “Não andem ansiosos pelo que quer que seja. Eu cuido de vocês, meus amados”.

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