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SUB-VERSÃO

O olfato da alma

Como explicar o que está acontecendo? Não é possível! Todo ano, a essa época, eu já o estaria sentindo, e agora, nada! Até agora, nada! Esse “atraso” assim, sem nenhum aviso, sem sequer uma mensagem me apavora.

Tento de novo e de novo, várias vezes ao longo do dia, e nada, nada mesmo de senti-lo.

No ano passado, curiosamente, ele se adiantou. Lembro-me bem de ainda ser novembro e numa manhã comum como tantas outras, já senti-lo no ar. E naquela ocasião, ele veio forte, intenso, inconfundível. Nenhum outro aroma no mundo é capaz de lembrá-lo nem de longe.

Ele é como um perfume muito, muito raro, daqueles que uma vez sentidos, ficam grudados em nossa alma e em nosso olfato. E é assim mesmo que todo ano o sinto, primeiro com a alma, depois com o olfato.

Mas o que está acontecendo esse ano, afinal?  Até agora, nem um leve sinal de sua chegada. Estranho, muito estranho...

E isso a despeito do furor do comércio, das árvores feitas de garrafas pet, das luzes, que por vezes mais remetem a uma celebração norte-americana que qualquer outra coisa, dos ursos polares e seus cachecóis vermelhos nos shoppings instagramáveis, a despeito até mesmo do tal “bom” e seletivo velhinho...

Não consigo senti-lo, a despeito da ânsia por dar e receber presentes e do endividamento que ela causa. A despeito dos cartões, agora virtuais, e das figurinhas temáticas do WhatsApp; a despeito de todas as campanhas solidárias, sempre mais ativas nessa época.

A despeito disso tudo, por mais que eu me esforce, ainda não consigo senti-lo no ar. Talvez o problema esteja em mim. Mas, afinal, o que ou quem me roubou a sensibilidade de outrora? Quem me roubou de mim?

“Nada disso, minha querida... Você ainda é a mesma menininha de antes, um pouco mais crescida, é fato, mas com a alma idêntica. Por isso, sugiro que feche os olhos, esqueça as luzes, o dinheiro, o WhatsApp.

Concentre-se naquilo que o Natal sempre representou para você. Sim, isso mesmo, tal qual quando ainda era só uma garotinha rechonchuda e pedia um shorts de futebol ao bom velhinho. Lembra?

E mais, limpe esse seu narizinho de batata, Aninha. Lave-o para limpá-lo de toda sujeira que a indiferença e o desamor deixam nele. Você sabe, o mundo anda cheio desses cheiros tóxicos...

Vamos, você consegue!”

Agora sim, feito como quem é atingido por uma onda impetuosa, sinto-me inteiramente tomada por ele, pelo cheiro do Natal. E constato, um tanto aturdida, que ele já estava aqui, faltava-me delegar-lhe a devida atenção.

Sim, ele chegou, posso senti-lo na brisa. E por que ele chegou, meu coração já pode descansar na certeza de que eles também já estão a caminho.

(Continua semana que vem...)

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