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Crônicas de um Sol Nascente

O menino que copiava

Há alguns dias, recebi uma notícia que me deixou verdadeiramente emocionado: fui informado de que uma de minhas crônicas (publicada aqui no Jornal Em Dia) estará, em um livro didático da Editora Moderna (uma das maiores do Brasil); livro este a ser distribuído, a partir de 2023, a alunos do oitavo ano em todo o país.

Para que tenham uma ideia do que essa alegria representa para mim, permitam-me falar um pouco de minha infância em Manaus. Sou oriundo de uma família pobre. E quando escrevo “pobre”, não estou exagerando: meu pai, o único provedor de uma família de quatro membros, viajava pelos rios da Amazônia levando bombons e outras pequenas mercadorias para vender em cada porto. Ou seja: tínhamos em casa o dinheiro contado apenas para a comida e o aluguel (este último jamais atrasado, vale ressaltar, graças ao planejamento de minha mãe).

Para meu irmão mais velho e eu, estudantes, o orçamento apertado também significava que somente poderíamos comprar um ou dois livros para o ano letivo: em regra, Português e Matemática. Quanto ao restante – Ciências, Estudos Sociais etc. –, teríamos de nos virar. E o que eu fazia? Pedia emprestado o livro de um colega ao final da aula e copiava as questões da tarefa para o dia seguinte. Um exercício que, vale frisar, eu tinha de fazer em tempo recorde; uma vez que o colega, claro, precisaria do livro na mesma noite. Dinheiro para fotocópias? Não tínhamos. Então o jeito era mesmo exercitar o punho para vencer o obstáculo. O que, felizmente, consegui. E digo mais, deixando de lado a modéstia: nos três anos do que na época era chamado de “ensino primário” (não fiz primeira série porque fui promovido automaticamente para o segundo ano), sempre obtive o primeiro lugar na escola. Graças a isso, recebi uma bolsa de estudos para cursar a quinta série no Colégio Einstein (posteriormente comprado pelo Objetivo); e, nos anos seguintes, também não decepcionei, obtendo o primeiro lugar na escola literalmente em todos os anos. De modo que, aos dezesseis anos de idade, eu era admitido na faculdade de Direito. Apesar do bom desempenho, porém, as dificuldades financeiras persistiram em todos os níveis de minha formação. Para terem uma ideia, na fase ginasial eu fazia as tarefas dos colegas em troca de um sanduíche, pois dinheiro também não havia para a merenda escolar...

Hoje, recordo tudo isso até com um certo sentimento de gratidão à vida que tive. Como disse o ator Roberto Benigni, ao receber o seu Oscar: “Agradeço a meus pais pelo dom da pobreza”. Compreendo plenamente a frase do artista italiano: pois, sim, uma criança pobre pode criar, justamente por ser pobre, uma força, uma vontade descomunal, que a fará triunfar na vida. Pelo menos, foi assim comigo. Assim, graças a essa gana de vencer e a um esforço contínuo, cheguei ao Japão (também por meio de uma bolsa de estudos), fiz um Mestrado, publiquei livros e, principalmente, criei as condições necessárias para que meu filho não tenha as dificuldades financeiras que enfrentei durante minha vida escolar.

Enfim, por tudo isso que relatei, hoje digo com orgulho que “o menino que copiava os livros didáticos” será agora lido: certamente por outras crianças pobres que também sonham com um futuro melhor. E é a essas crianças que deixo a frase final desta crônica: sonhem, acreditem e lutem... sempre com um livro entre as mãos.

***

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de dez livros, sendo o mais recente “Contos de um Brasil esquecido”, lançado pela Editora Folheando (Pará), e finalista do Prêmio Uirapuru. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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