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Olhar Social

O feminicídio nosso de cada dia

No ditado popular, se reproduziu ao longo do tempo que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Mas a realidade dramática que temos no país nos convoca a colocar sim a colher e todos os utensílios que tivermos em mãos!

O feminicídio – ou seja, o homicídio de mulheres pela condição de serem mulheres, no qual mata-se pelo ódio, menosprezo, indiferença, preconceito e violência contra pessoas do gênero feminino, que nos últimos dias tomou os noticiários dada a brutalidade e intensidade dos casos – não se resume a fatos isolados ou excepcionais, o que mostra a gravidade do que vivemos, escancara a face mais perversa e extrema do machismo estrutural.

O episódio ocorrido no Centro Federal de Educação Tecnológica “Celso Suckow da Fonseca” (CEFET/RJ) no começo de dezembro, onde duas servidoras públicas – a diretora Allane de Souza Pedrotti Mattos e a psicóloga Layse Costa Pinheiro – foram assassinadas com um tiro certeiro por um colega de trabalho, dado que ele não se sujeitava a ser chefiado por mulheres, ilustra essa realidade extrema, dramática e letal que inflam as estatísticas no país.

Outros episódios igualmente inaceitáveis eclodiram e ganharam repercussão também por esses dias: a jovem que foi atropelada e arrastada pelo ex-companheiro por cerca de 1 km na Marginal Tietê, em São Paulo; a jovem que caminhava em Florianópolis numa trilha rumo a sua aula de natação quando foi estuprada e morta por asfixia; a denúncia de agressão e tentativa de estupro da então namorada do influenciador Thiago da Cruz Schoba, conhecido como “Calvo do Campari”, que, aliás, produz conteúdo misógino e machista em suas redes sociais, levando-o a prisão.

São tantos e tantos casos dia a dia...

De acordo com o Atlas da Violência 2025, entre 2022 e 2023, o número de homicídios femininos no Brasil teve crescimento de 2,5%, o que vai na contramão da tendência de redução dos homicídios em geral, observada desde 2018. A média no país é de dez mulheres mortas por dia, fora as inúmeras formas de violência cotidiana, o que mostra a necessidade urgente de uma basta nessa situação, com enfrentamentos sérios, contundentes e compromissados, atacando o problema pela raiz, que ao mesmo tempo protegem mulheres e punem seus algozes...

Nesse sentido, a internet tem sido um polo propulsor de células misóginas e machistas. Lugar onde os chamados “red pill” se encontram. Na tradução literal, o termo significa “pílulas vermelhas”, uma menção ao filme Matrix de 1999, no qual o protagonista ao tomá-la teria acesso à verdade, o que, no contexto atual, foi ressignificado fazendo uma espécie de analogia para que os homens “acordarem” para realidade, tendo como centralidade o debate sobre masculinidade. Ocorre que esses supostos debates, trocas, espaços de discussão são verdadeiras células, muitas vezes criminosas, de reprodução do ódio, preconceito e violência contra o gênero feminino – que não ficam, por vezes, restrito ao universo virtual, mas ganham força para serem reproduzidos no cotidiano das relações sociais – uma espécie de negação, repúdio à liberdade feminina, suas conquistas e direitos, reconhecidos a duras penas até aqui. Por isso – mas só – que o universo virtual urge ser regulamentado.

Do mesmo modo, se faz necessário o enfrentamento aos traços patriarcais e conservadores que moldaram (e seguem moldando) a sociedade brasileira ao longo de sua história. Isso, dentre outros, a partir de uma educação pública voltada para a cidadania, respeito e empatia as diferenças. Algo que não imponha um gênero sobre o outro, uma relação de submissão, medo e inferiorização, estimulando, ao contrário, que as mulheres estejam onde desejarem estar. Ao mesmo tempo, que tenhamos instrumentos legais, políticas e serviços públicos de proteção, cuidado e zelo às mulheres, responsabilizando seus algozes e atuando antes que pior ocorra!

Na música de Erasmo Carlos de 1981, se diz “Dizem que a mulher é o sexo frágil, mas que mentira absurda! Eu que faço parte da rotina de uma delas, sei que a força está com elas [...]”. Elas são fortes sim, e muito, mas estão sendo mortas e isso não podemos aceitar!

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.

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