Essa semana, uma frase de uma aluna me surpreendeu, a ponto de me conduzir a uma reflexão profunda, que compartilho agora com vocês, leitores.
Estávamos construindo aprendizados, eu, auxiliando um aluno especial, que me enchia de perguntas, às quais eu respondia com outras novas, confesso, propositadamente, fazendo-o pensar e, ao mesmo tempo, exercitando minha paciência, quando, de repente, a tal aluna se manifesta:
— Professora, você é muito doce!
Olhei em sua direção, surpresa, incerta se aquilo que acabara de ouvir assumira tom de repreensão ou elogio, mas logo minha dúvida dissipou-se: de fato, tratava-se de um elogio. Apenas quatro letras... mas que me causaram um espanto tão belo!
Aquela menina havia apontado para mim e para a sala, com extrema sensibilidade, a falta de doçura que permeia nossos dias; e talvez, meu excesso. Por isso, a princípio pensei mesmo tratar-se de repreensão, pensei estar parecendo permissiva demais aos olhos daquela adolescente tão crítica e observadora.
Vivemos dias de escassez de doçura; dias de extrema acidez e falta de amor. Dias de individualismo exacerbado e pouco “olho no olho”, gentilezas e empatia.
Me pus a pensar isso depois de ouvir a frase/desabafo da aluna. Pensei também, confesso, se não estaria eu pecando ao ser, como ela concluíra, “doce”. Pensei nos frutos que a doçura pode produzir, bem como lembrei-me de situações doces e do que elas provocaram no íntimo do meu ser. E cheguei a uma conclusão: quero e preciso continuar doce, ainda que o mundo sugira e incite o contrário, ainda que por vezes me sinta coagida e marginalizada pelas vozes da indiferença e do medo.
O caminho da doçura é tão difícil quanto compensador. E aquela menina, com sua sinceridade arrebatadora, e por que não dizer, com sua “doçura”, despertou em mim a consciência da doçura, e notei, a princípio meio assustada, o quanto temos negligenciado essa prática: de ser doce e espalhar a doçura por onde passamos.
Eis aqui uma pequena amostra do quanto aprendo diariamente com meus alunos. São aprendizados para a vida, verdadeiras odes ao Ser Humano. Eis a riqueza do convívio com os adolescentes, do estar em sala de aula, com e apesar de todas as dificuldades e entraves.
Lições diárias de doçura. Eu preciso delas para sobreviver ao caos de mim mesma, mais do que preciso de falsas bajulações eleitoreiras e hipocrisia.
É preciso ternura pra enfrentar os dias maus e os bons
E na mesma medida nos dois, ilimitada.
Só a ternura já basta para tornar a vida menos corrosiva
e os homens, menos indiferentes.
É ela quem dá brilho aos olhos e algum sossego ao coração.
Quando o mundo tritura meus sonhos feito moinho,
e Cartola, sábio, tinha razão,
eu respondo com a ternura,
de quem continua insistindo em sonhar com os pés no chão.
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