Toda vez que chove, é como se um espinho entrasse em minha carne. É como se o próprio Deus descesse nas águas, desferindo contra o mundo sua ira.
Nosso mundo é tão pequenininho, uma casinha construída a muito custo, com muito suor, dois cômodos só, na encosta, que é onde podíamos pagar.
Toda vez que chove, eu sinto um nó na garganta, um aperto no peito, que não é como o que eu sentia quando via o Zé, não. Aquele lá era de alegria, de paixão. E eu sinto até hoje, toda vez que ele chega do trabalho, me beija na testa e corre pra pegar nossa menininha no colo. Deus foi generoso comigo me dando o Zé, homem trabalhador, esforçado, nunca que deixou faltar nada pra gente.
Trabalha feito o cão, e tá sempre repetindo a promessa de que ainda vai tirar a gente daqui, vai conseguir um lugar melhor, que ele também tem medo da chuva...
Sabe, ninguém devia ter de ter medo da chuva. A chuva, quando eu era menina, era sempre muito esperada. Eu adorava tomar banho de chuva, sentir o cheiro da terra molhando com os primeiros pingos. Hoje, moço, eu morro de medo da chuva.
Tenho pesadelo com chuva forte, noite sim, noite não. E nem penso em mim, não. Penso é no Zé e na nossa menininha. O sonho da mulher pobre é ver a filha crescer com saúde e se tornar mulher feita, estudada, coisa que eu não pude fazer. Ah, mas ela vai, vai estudar, vai ser o que quiser na vida, eu juro!
Início de ano é complicado. Ela sempre vem, uns anos mais tímida, outros, furiosa. Eu tenho medo dela, moço. Eu rezo toda noite pra Ele ter piedade da gente e não mandar chuva forte, não mandar chuva capaz de arrastar terra, não mandar chuva que acabe com a nossa casa.
O Zé e nossa menininha são tudo o que eu tenho. Se eu tiver que levantar outra casinha no braço, eu levanto. Mas ficar sem eles, isso seria demais doloroso pra mim.
Toda vez que chove, minha alma se entristece um pouco, moço. A chuva vem me lembrando que não consegui um lugar melhor pra minha família morar. A chuva sempre chega me acusando de ser o que eu sou: pobre.
E é por isso, moço, que eu não vou descansar enquanto não encontrar minha bonequinha, minha menininha. Nem que eu precise remover essa montanha de lama do lugar, com as mãos, moço, eu vou achar minha menininha.
Tá vendo essa lama debaixo das minhas unhas, moço? Isso não é sujeira, não. Isso é amor!
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