- Professora, por que você não faz chamada pelos números? Indagou-me a menininha de olhos espertos e mente brilhante. Ao que respondi, também questionando, marota, uma vez que já intuíra a resposta que viria:
- Vocês já sabem os números de vocês?
- Sabemos! Quer dizer, tem uns que ainda não gravaram, professora, mas a maioria já sabe. Pode fazer a chamada pelos números... Tem professor que já tá fazendo.
- Entendi. Mas podem esquecer os números, vou continuar chamando vocês pelos seus nomes.
- Por que, professora?
- Simples! Por que vocês não são números, vocês são seres humanos, que têm seus próprios nomes. Sabe, gado é que a gente chama por número, gente, não.
Houve um silêncio espantoso na sala depois dessa minha fala. Haveria um silêncio sepulcral no mundo se ela fosse repetida e pensada e seu cerne posto em prática. Haveria educação de verdade, e não esse eterno faz-de-contas a que somos submetidos, se essa fala fosse a prática mais sagrada dentro de nossas escolas.
Mas a educação mercantil insiste em nos enxergar a todos, professores e alunos, feito gado, mero número, quando a educação devia enaltecer nossa peculiaridade mais especial, o fato de sermos humanos.
E que fardo é ser humana e amar a educação! Que fardo pesado esse que os anos têm nos delegado de ignorar também a humanidade de nossos alunos. Subversiva como sou, me nego a agir assim. E talvez isso me torne uma professora ruim, ou pelo menos, eu seja por esse motivo, mal vista por alguns, mas é o preço que se paga por insistir em reconhecer e respeitar o universo que é o outro. Então, não pretendo mudar.
O que, a princípio me atraiu para a área da educação foi justamente a possibilidade de trabalhar diretamente com seres humanos, e seres humanos em formação, cheios de energia, sonhos, questionamentos! Seres humanos que, se continuarem resistindo, não permitindo que o sistema lhes roube sua humanidade, serão capazes de transformar o mundo!
Não, eles não são apenas números, nunca serão! Por esse motivo, minha chamada continuará com nomes, minha aula continuará sendo um reduto onde impera o respeito à humanidade de cada um. Continuarei sendo mal vista, mas o que é um olhar torto diante de milhares de outros encantados?
E, cá entre nós, eu nunca gostei de números mesmo!
O Reino numeral
Ouço notícias da Palestina,
E meus ouvidos, pouco receptivos a notícias,
Ainda assim se escandalizam de dor.
As pessoas são números estatísticos
E isso me agride bastante,
Porque os números sempre me causaram sensação de distanciamento e frieza.
Porque os números...
Os números não nutrem esperanças,
Nem são dotados deste músculo essencial chamado coração.
Não, os números não se despedem daqueles a quem amam,
Com beijos, ao sair, logo pela manhã.
Não, eles também não temem a incerteza do retorno seguro ao lar,
Eles não ouvem o “tchau” dos filhos,
Com aquele amável grito estridente,
Que só as crianças sabem emitir.
Os números... Os números não amam,
Os números não odeiam.
Não se personificam,
Nem tão pouco os seres humanos por eles representados
Podem regredir, vergonhosamente a esse seu estado numeral...
Isto jamais!
Porque, ainda que sejam infindos,
Neles jamais caberiam todos os sonhos,
Medos, alegrias, angústias e desejos
Que acalentaram, aqueles de quem o estado numeral decreta,
solenemente, nos telejornais burros,
a morte.
Talvez a morte seja mesmo,
Ao menos para os mais insensíveis,
O triunfo dos números,
A instauração do Reino Numeral...
A estrela e a cruz...
Eu, particularmente, as inverteria em minha lápide,
Que a vida, às vezes é fardo,
Enquanto que o morrer é alento de felicidade eterna.
...
A caneta quase que se nega a registrar este último verso,
Contudo, há necessidade de encerrar esse poema com ele,
Ou, seria mais adequado, com ela,
Esta pergunta que se lhe apresenta assim,
Grave, fria e mortal:
- Quantos, quantos teriam morrido desde o início de sua escrita
até este desfecho esdrúxulo?
Quantos?
NÚMEROS...
***
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