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SUB-VERSÃO

Nossas meninas...

No último jogo da seleção brasileira de futebol feminino, durante a Copa da França, quando após a derrota para as francesas, o locutor vociferou “Valeu, meninas! Estamos orgulhosos de vocês!”, eu desliguei a TV, assim mesmo, abruptamente, e vou explicar-lhes o porquê.

Porque eu simplesmente não podia compactuar com toda a hipocrisia daquela euforia toda contida naquela frase entusiasta. Não, o Brasil não se orgulha de suas meninas, nem nunca se orgulhou, caso contrário não seríamos os campeões em número de feminicídios.

Fosse verdadeira essa sentença, “as meninas”, como pseudo-carinhosamente o locutor da partida se referia às jogadoras da seleção, receberiam salários equivalentes aos dos “meninos”, e até mesmo no uso desse substantivo-adjetivo, faz-se clara uma diferenciação, já que, quando usado para se referir aos homens, confere-lhes certo ar pueril, na maioria das vezes, isentando-lhes de suas responsabilidades, quando diante de uma de suas constantes presepadas.

Fosse assim, elas teriam patrocinadores multimilionários, feito os que sustentam as contas e também a vaidade exacerbada dos tais “meninos”.

Não, o Brasil não se orgulha de suas “meninas”. A ignorância e a misoginia aqui são tantas, que o simples fato de uma mulher usar batom causa um enorme alarde. E não se perca de vista que a mulher em questão é nada mais nada menos que a maior artilheira da história das Copas, eleita seis vezes como a melhor jogadora do mundo...

Então, não sejamos hipócritas, que o Brasil não se orgulha de Marta, nem das inúmeras Martas, filhas da miséria. Nem de Cristiane, tampouco das anônimas outras tantas meninas.

Vivemos num país que alimenta o ódio à mulher, e para o agravo dessa situação, conta ainda hoje com o “aval” e o respaldo provindos da parte de quem devia repudiá-lo.

Nascer mulher num país como o nosso é um impropério, é pôr à prova a valentia e coragem de galgar e exigir espaço nos espaços todos ocupados majoritariamente por eles.

Fazer-se mulher é ainda um desafio e uma afronta, pasmem, em pleno século vinte e um. Basta lembrar que somos oferecidas pelo mandatário maior da nação para o turismo sexual.

Sofremos assédio físico e moral. Não ganhamos o mesmo que eles. Temos nossa capacidade e nossa inteligência constantemente subjugadas em piadas e falas machistas.

Não, o Brasil definitivamente não se orgulha de nós, mulheres, que somos donas de casa, professoras, executivas, jornalistas, advogadas, diaristas, radialistas, líderes comunitárias, escritoras, esportistas, elevamos o nome do Brasil em todo o mundo, mediante nossas conquistas, mas não, nosso país não se orgulha de nós!

Texto dedicado à Sra. Marina Izidoro de Morais, mulher, trabalhadora, vendedora de balões, cruel e covardemente arrastada por um carro, após negar pedido de desconto.

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