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Crônicas de um Sol Nascente

Noites de reis e caratecas

Desde que esta pandemia teve início, são tantas as notícias de falecimento que já não sabemos mais o que dizer ou como agir diante de uma nova perda: seja de familiares ou de desconhecidos; seja de anônimos ou de famosos. Tudo o que sabemos é que cada uma dessas mortes leva também um pouco da alma dos que sobrevivem; apenas restando a estes últimos a melancolia e as lembranças.

Senti-me assim nesse mês de agosto com as mortes dos atores Sonny Chiba, Tarcísio Meira e Paulo José, que fizeram parte de duas das grandes paixões que embalaram a minha adolescência: o cinema e a teledramaturgia.

Aliás, comecei a acompanhar novelas – sim, aquelas antigas, dos bons tempos das Redes Globo e Manchete – antes ainda que o cinema. E a primeira novela a que assisti foi “Roda de Fogo” (1986), na qual contracenavam Tarcísio Meira e Paulo José. Na trama, Tarcísio era o rico e inescrupuloso empresário Renato Villar, que, entre outros crimes, fora acusado do assassinato de Celso Rezende, personagem de Paulo José. 

Lembro-me de que, então com onze anos de idade, eu ficava tentando memorizar as falas de Tarcísio para repeti-las que nem um papagaio pela casa, imaginando-me tão chique e calculista quanto Renato Villar. Acredito até que vem daí minha predileção pelos vilões, sempre mais interessantes na ficção do que os tediosos mocinhos.

E, após o Renato Villar, outros personagens de Tarcísio igualmente me fascinaram. Caso de Raul Pelegrini (Pátria Minha) – de certa forma, um novo “Renato Villar” – e de César Toledo (Torre de Babel) – um empresário, desta vez, do “bem”. Sim, Tarcísio Meira era uma espécie de George Clooney da época (respeitando-se, claro, as peculiaridades e o histórico de cada): podia não ser um ator multifacetado, mas interpretava com elegância e competência cada um de seus personagens, que, não por acaso, marcaram a história da tevê brasileira.

Já em relação a Paulo José, apesar de tê-lo acompanhado também na tevê, é um de seus filmes que me vem à memória toda vez que leio ou ouço o nome do ator: “O Rei da Noite” (1975), de Héctor Babenco. E, apesar da magnífica interpretação de Paulo José, o filme me traz reminiscências pelo fato de haver sido a primeira obra com algumas “cenas adultas” que, sendo eu um pré-adolescente, consegui ver – creio que (se não me falha a memória) numa daquelas sessões “mais pesadas” nas noites da Rede Bandeirantes.

E, finalmente, quanto ao astro japonês Sonny Chiba, lembro-me, claro, dos filmes de artes marciais. Filmes “B” – e digo isso com todo o respeito, pois sou fã desse tipo de cinema –, que também fizeram minha alegria, especialmente aqueles feitos direto para o VHS (meu irmão e eu tínhamos uma coleção de filmes de ação, que víamos principalmente à noite, incluindo um clássico de Sonny Chiba – “The Street Fighter”!).

Tarcísio, Paulo, Sonny, entre outros... Todos eles, a seu modo, reis nas noites daquele jovem amazonense, franzino e cheio de sonhos. Por isso, a melancolia ao saber de suas mortes. Mas também a gratidão pelas muitas vidas com as quais me fizeram sonhar.  

***
EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de nove livros, sendo o mais recente: “Crônicas de um latino sol nascente” (Telucazu Edições, 2020). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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