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Crônicas de um Sol Nascente

No planeta zoo

Na semana passada, levei o meu filho ao zoológico de Ueno, este um dos bairros históricos mais importantes de Tóquio. Aliás, o próprio zoológico já é uma aula de História à parte. Fundado em 1882, o local, por exemplo, já recebeu elefantes trazidos da Índia por Jawaharlal Nehru em pessoa, durante a visita deste ao Japão em 1949.

E foi justamente um elefante (provavelmente descendente daqueles trazidos por Nehru) que nos deu as boas-vindas à entrada do zoológico. Com a força descomunal própria da espécie, o paquiderme exibia-se, sob os aplausos do público, usando a pata e a tromba para quebrar espessos galhos de árvores. Enquanto os olhos da criançada (inclusive os de meu Endi, naturalmente) permaneciam arregalados diante do grandioso espetáculo.

Findo o show do colossal Dumbo, partimos para uma das áreas que mais me chamou atenção em relação à enclausurada bicharada: a montanha artificial, planejada especialmente para abrigar um grupo de babuínos. Mas dessa vez, além das acrobacias típicas dos símios, observei uma cena que, aparentemente comum, levou-me a uma reflexão, digamos, mais profunda. Tratava-se a referida cena de uma interessante definição de papéis sociais: um babuíno catava os piolhos de um outro, que parecia ser o líder, pois era o único que ficava deitado, recebendo os serviços dos demais. E foi aí que, vendo aquela mordomia, veio-me este pensamento: “Vejam só. Não sei o que esse babuíno fez para ser ‘eleito’ chefe do grupo... mas não há dúvidas de que está aproveitando a mamata, como qualquer político que chega ao poder”. Isso mesmo, amigos: os primatas do zoo de Ueno também bajulam os seus espertalhões, que, tomando o poder, passam imediatamente a usufruir de privilégios. Enquanto a maioria fica lá, catando piolhos... Para desespero de Darwin.

Suspirei, enfim, e, vencido, lembrando-me do “homem primata” dos Titãs, dirigi-me com a família para o próximo setor: o dos anfíbios. Mas foi aí que levei realmente o primeiro grande susto do dia. Enquanto observávamos um sapo (“kaeru”, em Japonês) que habitava uma caixa de vidro, fomos surpreendidos por um jovem que, atrás de nós, gritava “kaeru” ao mesmo tempo em que saltitava como tal. Não era uma criança, vale frisar: era um rapaz, que, claro, parecia sofrer de grave doença mental. Uma cena chocante, para dizer o mínimo: de difícil e dolorosa descrição. Se o jovem era perigoso? Acredito que não. No entanto, por precaução (eu levava pelas mãos uma criança de três anos), afastamo-nos dele o mais rápido possível. 

O que não imaginávamos, porém, era que a cena mais bizarra do dia ainda estava por vir. Quando nos aproximamos da jaula do tigre, deparamo-nos com uma senhora de meia-idade levando nos braços e acariciando um cachorro que, na verdade, era um “robô”. Isso mesmo que leram. O robô-cachorro (ou cachorro-robô, sei lá) mexendo eletronicamente a cabeça e o rabo, e a mulher falando com o “bichinho” como se este fosse real.

De modo que, depois dessa, só me restou voltar ao setor dos babuínos para pedir-lhes, com urgência, uma consulta psiquiátrica.

***

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

 

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