Uma paixão avassaladora. O jeito másculo do moço, sua pose de galã, sua atitude firme a encantaram desde o início. E do início até o presente momento, pouco tempo se passara, porque paixões avassaladoras são mesmo assim, mágicas, subtraem o tempo a seu favor, elas urgem.
Do início do namoro ao casamento, alguns meses de intervalo apaixonado. Do casamento ao primeiro filho, um ano.
Era dezembro e ela se arrastava pela casa, o corpo longelíneo mal parecia ter estrutura para suportar a enorme barriga que se projetava. Barriga pontuda, diziam que seria menino. Não quis procurar saber, aliás, foi poucas vezes ao médico, o trabalho não permitia.
O trabalho na fábrica de tecidos e o trabalho em casa, que conseguia ser ainda mais desgastante que o primeiro. Lavar, passar, cozinhar, tirar a mesa, pôr a mesa... Pegar a cervejinha gelada pro marido estatelado no sofá. Mãe e rebento trabalhando pelo macho da casa. Fosse menina, contrariando a opinião das comadres, já ia nascer educada a servir, afinal, já passara por um treinamento intensivo de longos nove meses na barriga da mãe.
Cansada, as pernas e os pés inchados, ela seguia a via crucis que é ser mulher e no íntimo de seu ser, desejava que a criança que traria ao mundo fosse um menino.
Era um menino, nasceu grande, forte feito o pai, disseram. Ela não chegou a vê-lo. As complicações de uma vida agitada por brigas e discussões fizeram-na desenvolver um quadro de eclampsia, ao qual não conseguiu sobreviver.
Ao menos, a criança vingou. E Deus queira que não cresça feito o pai, que seja homem íntegro a ponto de respeitar a mulher. Que saiba reconhecer na figura feminina sua companheira e não seu capacho. Que honre a memória da mãe que não chegou a conhecer.
Mas esse ano... Esse ano não tem Maria no presépio.
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