news-details
SUB-VERSÃO

NEGUINHO Ou Coringa à brasileira

Quando a desgraça se abate sobre o pobre, ela nunca vem pouca. Nunca vem de mansinho, ela chega mesmo é que nem policial à porta do barraco, ela remexe em tudo feito os homens procurando o que eles não querem achar. Pé na porta, armário revirado, gavetas no chão, a desgraça na vida do pobre nunca é pouca, nunca é mansa, e parece que nunca passa.

Ela já estava desiludida, quando ouviu do médico do postinho que estava grávida, e talvez tenha pensado “Como vou trazer à vida alguém se já nem eu mesma vivo há muito tempo?”

Não comemorou. Ao contrário, engoliu o choro e debaixo de sol quente subiu o morro. Desorientada, não sei se pelo sol ou pela notícia que acabara de receber, ela já quase que não reconhecia as vielas da comunidade onde vivera desde criança. Estava tudo diferente, as cores, as pessoas, o comércio... Ela estava diferente, enfim.

Não, é óbvio que ele não assumiria o filho. Aquele mauricinho, filhinho de papai jamais admitiria ter tido qualquer envolvimento com a filha da empregada. Por essa razão, nunca contou, nunca o procurou, carregou sozinha a dor de ser sozinha e filha da empregada e de estar gerando em seu ventre pobre o neto da empregada e dos patrões.

Pré-natal feito aos trancos e barrancos, quando havia médico no postinho e enquanto ela aguentou subir e descer as escadarias que ligam a comunidade ao resto da cidade, e o menino nasceu. Menino forte, grande, negro como a mãe, os olhos amendoados e um sorriso capaz de derreter até mesmo os corações mais sisudos. Lindo! Uma criança calma e sorridente.

O menino cresceu, continuava um garoto sorridente. Aliás, o sorriso era sua marca registrada. “Neguinho reganhado!” – diziam uns e outros, se referindo à sua facilidade voluntariosa de sorrir para todo e qualquer um.

Acontece que o neguinho reganhado aos poucos foi se revelando um tanto quanto diferente dos outros neguinhos do morro. Talvez fosse sua inocência que o fizesse destoar do restante da paisagem.

Na escola, sofria feito cão a gozação dos outros neguinhos, dos outros branquinhos. Era feito capacho deles, sempre fora. Sofria por não saber quem era seu pai. Sofria por não saber quem era si mesmo.

Quanto mais o tempo passava, mais humilhado ele era. Nas batidas, frequentes na comunidade onde vivia, quase sempre era humilhado e apanhava, apanhava feito gente grande. Apanhava, sorrindo.

“Só pode ser retardado!” – diziam as vozes dos ignorantes. Ele fingia ignorá-las. Toda sua vida era uma encenação só.

Certa vez, ouviu de uma professora que era um imbecil, ou que devia ter comido merda quando criança, porque sorrir como ele sorria não era normal, era coisa de gente louca.

Não aprendeu muito com a escola, não. Era muito claro que ele tinha lá suas limitações, e a escola, quando as reconhece, quase sempre nada faz para adequar-se a elas. A dele, nada fez. Era mais cômodo rotular o menino como retardado.

A vida, já essa mestra o ensinou, e muito. Feito professora austera, sem um pingo sequer de paciência, na base do grito e da porrada, a vida ensinou àquele neguinho que não se deve sorrir pra todo mundo, e que a maioria de nós está aqui mesmo é só pra sofrer.

Acaso Neguinho queria mudar isso? Nada! Ele nem compreendia a gravidade de todas essas coisas que nos moldam.

Neguinho queria sorrir. Neguinho era menino direito. Nunca, nunca mexeu com coisa errada. Sempre que lhe ofereciam, ele se lembrava da mãe, morta precocemente por um câncer de mama, e sorrindo, como só ele sabia fazer, recusava.

Mas um dia, e esse dia fatalmente chega à maioria dos neguinhos dos morros, nosso Neguinho cansou. Cansou da fome, cansou da humilhação, cansou de tentar entender quem era e o que o fazia assim tão desprezível aos olhos de todo mundo. Foi quando Neguinho sentiu o peso da uma arma na mão pela primeira vez. Neguinho sorriu. Ficou constrangido, não sabia muito bem o que fazer com aquilo.

Na cabeça confusa dele, muitas imagens se passavam, da mãe morrendo, dele apanhando na escola, do dia dos pais, do dia em que, ele nem sabe por que, num beco da comunidade uns meninos arrancaram sua calça, e tudo o que ele se lembra é de que o fizeram sentir muita dor e sangrar, do dia em que não teve nada pra comer, da professora o xingando, do traficante lhe entregando o revólver calibre 38.

Pesado, pensou ele. Mas não mais que a vida, Neguinho.

Colocou a arma na cintura, e saiu, todo receoso de que alguém a notasse. Mas acaso alguém o notava? Acaso algum dia alguém o notara?

Neguinho, como que num passe de mágica, encheu-se de coragem. Já não era mais o menino sorridente de quem todos zombavam. Era agora um homem amargo e armado.

Mas, sabem, eu posso jurar que ainda vi um resquício de um sorriso no canto de sua boca, quando tomado de uma fúria violentíssima, ele alvejou os três caras no beco. Sim, aqueles que lhe haviam arrancado as calças e a dignidade da outra vez.

Ele estava feliz. Ele estava feliz?

Ninguém nunca soube quem matara aqueles três infelizes. Podia ser muita gente, essa é que é a verdade.

Neguinho ainda vai fazer muito estrago. Tem o apoio do maior traficante da região, o homem que lhe deu a arma.

Neguinho voltou a sorrir um sorriso capaz de iluminar a comunidade inteira. Agora, ele desce as escadas dançando. Neguinho ganhou a admiração do povo do morro. Sempre sorrindo, sem nem ao menos saber o porquê.

Mas essa nossa vida não é isso mesmo? Um mistério insondável? Uma violenta e passageira emoção?

Sorriam!

Você pode compartilhar essa notícia!

0 Comentários

Deixe um comentário


CAPTCHA Image
Reload Image