A vida é isso: inconstância. E talvez por isso mesmo seja tão encantadora. Era para ter sido uma viagem deliciosa de carnaval, no estado que mais amo: Minas. A cidadezinha escolhida dessa vez foi Passa Quatro, palco da disputa histórica entre paulistas e mineiros, cidade pacata, repleta de cachoeiras e belezas naturais, além, é claro do Trem da Mantiqueira.
Cheguei a fazer o passeio de trem, na verdade, pela segunda vez. Igualmente encantador. Cheguei a visitar uma cachoeira, e foi só.
Uma virose muito agressiva me pegou. Durante a madrugada de domingo para segunda, uma dor abdominal como nunca senti apossou-se de mim, fui curvada até o banheiro e desde então, este foi meu cômodo mais constante.
Mas essa não é a parte mais importante dessa história. A parte mais importante de qualquer história é sempre aquela que se refere aos seres humanos. E Minas está repleta de seres humanos absolutamente humanos.
Como a jovem senhora funcionária da pousada onde fiquei, que assim que soube de minha indisposição, logo prontificou-se a preparar-me um chá de folha de goiaba, que serviu-me quentinho, feito chá de mãe.
O chá, confesso, não foi suficiente para amenizar minha dor nem as constantes idas ao banheiro, mas foi mais do que suficiente para alegrar minha alma. O esforço empreendido em tentar amenizar a dor do outro foi suficiente para lembrar-me da generosidade do povo mineiro.
Não me lembro de nenhum episódio em que tenha sido mal recebida em Minas, pelo contrário, o que está gravado em minha memória são inúmeros momentos de extrema hospitalidade e gentileza. Do cafézin com queijin sempre disponível, do docin de leite, só não mais doce que a fala desse povo tão querido...
Dessa vez, não seria diferente. Já sinto saudade de como me sinto acolhida estando em Minas, do sotaque cantado das pessoas, da sua generosidade descompromissada, da sua preocupação genuína com seu semelhante, do seu jeito calmo, sem pressa...
E agora me vem à mente a cena do atendente do laticínio absolutamente calmo, atendendo com toda atenção a cada um dos clientes que formavam fila fora do estabelecimento, e me pergunto: quando é que nos ensinaram a pressa de viver? Por que me veria nervosa diante de uma fila daquele tamanho?
Quando é que nos roubaram aos paulistas, essa calma na alma? Quando é que inventaram essa grande bobagem de que tudo tem de ser feito correndo, de que a vida tem de seguir esse ritmo alucinado, sem ser de fato vivida e apreciada?
Quero a calma dos meus irmãos mineiros, quero aprender um tiquinho que seja de sua generosidade e humanidade. Quero, em breve, assim que essa doença me deixar em definitivo, saborear o queijin que trouxe do laticínio de Passa Quatro, acompanhado é claro de um cafézin e uma boa prosa.
E que a vida, esse lindo espetáculo de inconstância siga me surpreendendo, com gente boa e seus chás.
0 Comentários