Na edição anterior, escrevi sobre o lado divertido de ser estrangeiro no Japão (aliás, sobre o tema, ainda publicarei a crônica a respeito de minha entrevista na tevê japonesa, conforme amigos solicitaram nas redes sociais). Hoje, porém, a abordagem do assunto “migrante” será um pouco mais cinzenta.
Falo da forma como somos tratados no momento em que adentramos qualquer estabelecimento, e os atendentes percebem que somos estrangeiros. Sim, porque ser estrangeiro é também vencer muros cotidianamente para realizar as mais corriqueiras tarefas (como ir a uma farmácia ou a um supermercado).
E aqui peço aos leitores que visualizem... ou “realizem comigo”, como diria o saudoso personagem Seu Saraiva do programa “Zorra Total”: você, estrangeiro, adentra um determinado estabelecimento. Ao vê-lo, o atendente já olha chateado ou finge que você não existe.
E, quando finalmente você se aproxima para pedir o que deseja, o tal funcionário diz não entender o que o cliente pede somente para poder livrar-se o mais rápido possível daquele incômodo. Visualizou? Pois bem, isso acontece comigo todos os dias, e já há mais de vinte anos.
Não me entendam mal, contudo. Não estou dizendo que ser estrangeiro na Terra do Sol Nascente é um inferno. Não, de forma alguma. Estou dizendo que ser estrangeiro é duro em qualquer parte do mundo. E isso, apesar de não ser novidade alguma, tem de ser dito e repetido à exaustão. Porque a xenofobia está aí, escancarada e violenta em todas as partes do planeta (vide, por exemplo, o caso do assassinato de um jovem congolês, ocorrido recentemente no Brasil).
De modo que, lendo os noticiários ou vivenciando o preconceito, chego às vezes à conclusão de que essa maldita xenofobia é própria da natureza humana. Animal social, uma pinoia, Aristóteles! O ser humano quer mesmo é meter o sarrafo no primeiro “forasteiro” que invada o seu mundinho. Esquecendo-se de que, para que o seu “mundinho” fosse criado, seus antepassados tiveram de migrar para o local que hoje chamam de “casa”.
Ora, casa! Profundamente – e aqui vou chocar alguns –, ninguém neste mundo tem verdadeiramente cidade, pátria ou lugar para chamar de seu. Somos todos, de alguma forma, migrantes. Então, quando você fechar as portas para um estrangeiro, lembre-se: se tivessem feito o mesmo com os seus antepassados, nem portas você teria para fechar na cara dos outros! Seria apenas mais um ao léu.
Sim, estou revoltado! E essa minha revolta contra os xenófobos explica-se porque, mesmo antes de sair do Brasil, sempre detestei bairrismos, nacionalismos e outras bobagens perigosas como as citadas. Pois tudo o que essas ideias equivocadas fazem é criar cercas, muros, medos e ódios... Mundinhos? Tô fora! Prefiro mesmo é este mundão de Deus... sem as fronteiras do egoísmo.
*** EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas/Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de nove livros, sendo que, em 2022, lançará mais um, agora pela Editora Folheando (Pará). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases)
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