Esta semana no Japão tem sido de feriadão – a chamada “Golden Week” ou “Semana de Ouro”, que consiste numa pausa de três dias na loucura que é o ritmo de trabalho nipônico. Neste ano, aliás, graças a uma abençoada combinação das datas, tivemos uma semana inteira de feriado – período este que aproveitei para estar, claro, com a minha família, mas também para escrever e, acreditem, assistir a filmes antigos japoneses.
Não, podem ir tirando o “dragãozinho” da chuva que não vou falar aqui de samurais ou de gueixas. Nem dos filmes de Kurosawa, que é o primeiro nome que vem à mente ocidental quando mencionamos “filmes antigos japoneses”. Nada disso, senhoras e senhores! Hoje, vou escrever sobre um cineasta menos celebrado que Kurosawa no Ocidente, mas que é, por motivos que citarei mais à frente, respeitadíssimo no Japão: Juzô Itami (pronuncia-se “Juzou”).
Nascido em Quioto no ano de 1933, Itami começou como ator na década de sessenta. Sua estreia como diretor, porém, demorou, só ocorrendo nos anos oitentas, com o maravilhoso “O Funeral” – um brilhante estudo do comportamento humano, que arrebatou prêmios na Terra do Sol Nascente e foi um dos maiores sucessos nos cinemas do país naquele ano de 1984.
Seguiu-se a “O Funeral” um novo sucesso: “Tampopo” (1985), que, no Brasil, recebeu o bizarro título de “Os Brutos Também Comem Spaghetti” (aff!). O filme tem no elenco, entre outros grandes atores japoneses, o futuro astro de “O Último Samurai”, Ken Watanabe, no papel de um dos caminhoneiros que ajudam uma viúva a melhorar o restaurante de ramen (ou, como queiram, lámen) do qual é proprietária. Outra obra adorável, enfim.
Mas é sobre os filmes mais polêmicos de Itami que desejo falar – aqueles que denunciam a Yakuza e algumas seitas religiosas (estas últimas, vale frisar, uma verdadeira maldição na sociedade japonesa, e que, aliás, têm espalhado seus tentáculos também no Brasil). E, dentre tais filmes, destaco um que pôs o dedo diretamente na ferida do crime organizado, e que, como a maior parte das obras de Itami, foi estrelado pela esposa do diretor, a atriz Nobuko Miyamoto. Trata-se de “Yakuza – a arte da extorsão” (cujo título original, Minbo no onna, também se refere, ainda que de forma mais sutil, a um ramo pé-de-chinelo da máfia japonesa). Na obra em questão, a advogada Mahiru Inoue, interpretada por Nobuko Miyamoto, luta para proteger o Hotel Europa, que virou alvo de cobiça por parte da máfia local.
Minbo no Onna foi realizado no ano de 1992 e é basicamente uma comédia, ridicularizando cada um dos personagens apresentados. O problema foi que a Yakuza não achou graça alguma, e começou a ameaçar o diretor, que, como consequência, passou a andar sob a proteção de seguranças. Infelizmente, porém, o crime organizado, mais uma vez, venceu, e, assim, no dia 20 de dezembro de 1997, Juzô Itami “cairia” do prédio no qual funcionava o seu escritório. A versão inicial: suicídio. Versão esta que, por razões óbvias, não foi aceita nem pela família do cineasta nem pela opinião pública. A verdade, contudo, somente seria revelada anos mais tarde, já em 2008, quando um antigo membro da Goto-gumi, um grupo mafioso da cidade de Shizuoka, confessou que o suicídio de Itami fora todo encenado: e que, apontando uma arma para o rosto do diretor, os mafiosos forçaram-no a pular do prédio.
Um trágico desfecho para o roteiro da vida de um cineasta com um imenso talento... e uma coragem colossal. Aplausos eternos a Juzô Itami!
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