A família coreana “Yi” muda-se da Califórnia para o estado de Arkansas em busca do “sonho americano”. O pai, Jacob, transforma gradativamente esse sonho em obsessão, o que o leva a atritos com a esposa, que deseja, a qualquer custo, manter o seu clã unido. E, em meio a essa crise conjugal, temos o pequeno David, que vai tentando, ao lado da irmã, adaptar-se à nova vida, ao mesmo tempo em que tenta criar laços com a avó, recém-chegada da Coreia
E mais não posso nem devo escrever a respeito da emocionante história que nos é trazida pelo filme “Minari”. O longa, estrelado por Steven Yeun (o carismático “Glenn Rhee” da série “The Walking Dead”), é uma declaração de amor a todos os imigrantes. Lembrando-nos em cada cena de que foi e é a coragem dos imigrantes que construiu (e tem construído) nações como os Estados Unidos e o Brasil. Pois, afinal de contas, apesar da intolerância e do preconceito que têm dominado as políticas internas dos países supracitados, os imigrantes e seus descendentes permanecem fortes, edificando o futuro.
Eu, descendente e hoje também um imigrante, confesso, fui às lágrimas com o filme. Porque, tal qual a família “Yi”, sei o que é cruzar oceanos em busca de uma vida melhor. Como Jacob, o pai, também tive (e tenho) o medo de falhar em uma terra estrangeira. Tal qual Mônica, a mãe, também luto para que os laços com as minhas raízes jamais sejam desatados. E, assim como o pequeno David, tento compreender (e aprender) todos os dias com o país que se tornou o meu lar.
Pois ser imigrante é, sim, temer, chorar de saudade e até mesmo desconfiar de tudo ao redor... Mas também é ter fé, adaptar-se e abrir o coração (mesmo quando encontramos pelo caminho alguns corações fechados). E é por tudo isso que tenho orgulho de ser imigrante. Porque, afinal de contas, de um modo ou de outro, todos somos imigrantes. E mesmo aqueles que se gabam de “jamais haver saído de sua terra” possuem também, no íntimo, orgulho dos avós e bisavós imigrantes – pioneiros que construíram a pátria da qual o suposto “nacionalista” tanto se orgulha.
E é por isso, ainda, que, ao assistir a filmes como “Minari”, entendo cada vez menos o ódio, aliado à falta de solidariedade e de conhecimento histórico, daqueles que desejam fechar as portas para os imigrantes. No Japão, aliás, também há esses discursos de anti-imigração, feitos pela extrema-direita. Às vezes, por exemplo, em lugares movimentados como Ginza, centro de Tóquio, costumamos ver alguns carros com faixas ultranacionalistas enquanto que, próximo ao veículo, um indivíduo profere ao microfone palavras de ódio contra a presença de “gaijins” (tratamento pejorativo dado ao estrangeiro por alguns japoneses). Mas, felizmente, posso afirmar, ele é ignorado pela grande maioria dos transeuntes, numa prova de que a xenofobia, na prática, é vista como um comportamento ridículo pela maior parte do povo japonês. De modo que, mesmo que continuem se esgoelando, os ultranacionalistas não conseguirão evitar esse novo Japão miscigenado, que a cada dia mais se fortalece.
E já que falei da força dos imigrantes diante do ódio: o título “Minari”, a respeito dessa força, é também emblemático; referindo-se a uma planta, muito usada na culinária coreana, mas de difícil cultivo. No entanto, uma vez que encontrem o lugar ideal para o seu plantio, as sementes de minari podem germinar de um modo rápido, dando origem a mudas de grande vigor – tal qual os sonhos do imigrante.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de nove livros, sendo o mais recente: “Crônicas de um latino sol nascente” (Telucazu Edições, 2020). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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