news-details
Crônicas de um Sol Nascente

Meu Brazil brasileiro

Todos os sábados, no intervalo para o almoço, vou a uma cafeteria cujo nome é “Doutor” – exatamente assim, escrito em bom português. É esta uma cafeteria famosíssima, possuindo sucursais em várias cidades do Japão. O porquê do nome em português? Há algumas teorias, mas uma das que possui mais força é a de que o fundador, indo ao Brasil, tornou-se muito amigo de um político local, conhecido como... doutor. O que me parece plausível – afinal, estamos falando do Brasil, o país dos doutores “sem formação acadêmica”.

Mas, bem, voltando ao tema da cafeteria. O “Doutor” é um local tranquilo e com um saboroso café; além de ser um dos muitos lugares no Japão onde podemos escutar as canções de João Gilberto, Caetano Veloso e Chico Buarque, entre outros artistas brasileiros. Digo “um dos muitos lugares” porque não é raro que a Bossa Nova e a Tropicália sejam a trilha sonora oficial em muitos bares e restaurantes do Japão. E aqui vale frisar o quanto nossos artistas são apreciados na Terra do Sol Nascente! Há alguns anos, por exemplo, fui a um show de Ivan Lins em Tóquio e pude presenciar esse respeito dos japoneses pela cultura brasileira. 

E mesmo no dia a dia, em minhas atividades no magistério, não são raras as ocasiões em que alunos me indagam a respeito de Tom Jobim e Paulo Coelho, para mencionar dois exemplos. Sim, senhor: Paulo Coelho, a quem tiro o meu chapéu. E não me venham com chiliques de intelectualóides, pois Paulo Coelho deveria ser aplaudido (ou, no mínimo, ter os méritos reconhecidos) por todo brasileiro. Ora, diabos! Além dele, somente Jorge Amado levou a todas as partes do mundo a literatura nacional. Para mim, falar mal do “Mago” é pura inveja em relação a alguém que conseguiu fazer o que muitos no Brasil desejam fazer (apesar de alguns mentirem dizendo que não se importam): o de alcançar o sucesso também no exterior.

Aliás, grande parte do nosso povo parece ter uma raiva inexplicável de todo brasileiro que consiga mostrar o talento e a capacidade para além das fronteiras tupiniquins. É quase patológico, diria, tal pensamento: o de querer destruir a imagem ou torcer pela derrota de um compatriota que consiga os aplausos dos estrangeiros. Vejo isso cotidianamente, seja nas artes, nos esportes, em todos os setores, enfim. Com raras exceções, o brasileiro não gosta de compatriotas que brilhem lá fora. E não venham me dizer que em todas as partes do planeta é assim – e que nenhum país gosta de ter seu cidadão aplaudido no exterior. No Japão, por exemplo, é evidente o orgulho nacional quando um de seus filhos é reconhecido pelo mundo afora. No Brasil, ao contrário, tal sucesso seria considerado até “ofensa pessoal”, como certa vez desabafou Tom Jobim. 

Fico triste com essa negatividade de muitos brasileiros, pois o sucesso de um compatriota deveria ser fonte de inspiração, não de inveja. Por outro lado, quem sou eu para julgar aqueles que têm raiva do sucesso alheio? É muito fácil para mim, longe da dura realidade brasileira, ser utópico em relação aos sentimentos e motivações do meu povo. Ainda mais aqui, escrevendo esta crônica e afogando as saudades em uma xícara de café... num “Doutor”. 

***
EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de nove livros, sendo o mais recente: “Crônicas de um latino sol nascente” (Telucazu Edições, 2020). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

Você pode compartilhar essa notícia!

0 Comentários

Deixe um comentário


CAPTCHA Image
Reload Image