Um dos bairros mais populosos de Bragança Paulista foi criado no ano de 1951 por iniciativa de Sebastião Cícero Franco (foto). Todos os que conheceram e travaram amizade com ele conservam em suas lembranças a personalidade daquele combativo bragantino.
No ano de 1949, adquiriu, de Bráulio Pinto da Cunha, um terreno localizado no então Bairro do Uberaba e, encantado pelo panorama que aquele lugar divisava, onde se destacava um belo horizonte, via-se o despontar do sol, resolveu fundar uma vila a qual deu o nome de sua esposa. Para registro na história, cito aqui seu nome: Maria Apparecida Leme Franco.
Após muitas lutas e rompidos os obstáculos que se apresentavam sobre inúmeros aspectos, conseguiu em 2 de janeiro de 1954 iniciar a construção da barragem para captação de água destinada para a Vila Maria e cujo benefício concluiu em poucos meses. Nesse serviço, contou com a orientação do engenheiro Regolo Anacleto Cecchettini. Na praça que denominou Belo Horizonte, ergueu uma caixa distribuidora de água e em 26 de julho daquele ano, o precioso líquido foi fornecido gratuitamente até 1958 às casas ali construídas. Todo encanamento, até então realizado por Sebastião C. Franco, a partir de julho de 1973, passou a servir a caixa distribuidora. No quarto ano da criação da Vila Maria, já em franco desenvolvimento, deu início à cobrança da água, pois, grande era o número de casas consumidoras. Em 1962, o fornecimento de água ao bairro foi entregue ao Serviço de Água da Vila Maria mediante comodato de cinco anos e posteriormente para o Serviço Autônomo de Água e Esgoto - SAAE, então, criado na cidade.
Sebastião Cícero Franco edificou diversas casas de moradia e vendeu a famílias de poucos recursos, não exigiu entrada, e o pagamento os adquirentes faziam de acordo com suas possibilidades: CR$ 100,00 (cem cruzeiros) e CR$ 150,00 (cento e cinquenta cruzeiros) mensais. Procedeu a denominação de todas as artérias da Vila Maria com nomes de sua família: Rua Maria Eugênia Franco (sua mãe), rua Lady Soares Leme (sua sogra) Ezechias Augusto Leme (seu sogro) e Rua Gentil Leme (seu irmão); as placas foram adquiridas em São Paulo. O acesso à Vila, em um morro íngreme, e em homenagem a seu pai, deu a denominação de Rua João Franco. Pleiteou em favor dos moradores uma linha de ônibus circular, o calçamento de todas as ruas e mais as que surgiram nas doze vilas, circundando a Vila Maria e, também, sua ligação à Vila Santa Libânia.
Sebastião Cícero Franco conseguiu para a Vila Maria os serviços do primitivo Serviço de Água e Esgotos – SAAE, com colocação das referidas redes, entregando-as à Prefeitura e após esta foi transferida para a Sabesp, mais os da Empresa Elétrica Bragantina – EEB e da TELESP.
De ideias avançadas, progressista, batalhador incansável, foi intransigente junto aos poderes municipais ao lhes solicitar o apoio merecido destinado as todas as obras e melhorias para a populosa Vila Maria. Seus sonhos e ideias encontraram apoio de padre Aldo Bollini, então vigário da Paróquia de São José e Santa Terezinha, e da Congregação dos Padres do Pontifício das Missões – PIME, com sede na Itália.
Em abril de 1952, com apoio de padre Aldo, realizou na Praça Belo Horizonte o levantamento do Cruzeiro na Vila Maria. Esse Cruzeiro, originalmente era feito de madeira com lâmpadas que eram acesas por ocasião das festas religiosas. Em novembro daquele ano, Sebastião C. Franco doou à então Paróquia São José e Santa Terezinha, o terreno para as obras sociais da Vila Maria. (Garoto, ed. nº 150, p.7). Na Vila, construiu-se uma pequena capela na Rua da Glória posteriormente transformada em escola-creche sob denominação Comunidade Sorriso, hoje extinta.
Padre Aldo, na mesma Rua da Glória, construiu a capela em louvor ao Coração Imaculado de Maria – Padroeira da Vila Maria. Desde 31 de maio de 1992, a antiga capela é Igreja Matriz da Paróquia Coração Imaculado de Maria. “Seo” Sebastião construiu uma casa de moradia para residência do padre vigário.
Sebastião Cícero Franco e Pe. Aldo Bollini inauguraram, na Praça Belo Horizonte, o monumento que foi responsável por tornar a região conhecida popularmente como Bairro do Cruzeiro. Esse bairro não existe oficialmente, nem onde está o símbolo, a Cruz, é Cruzeiro, o local pertence à Vila Maria.
Com o passar dos anos, o Cruzeiro de madeira, sofrendo as intempéries tornou-se inseguro no local, pois as rachaduras não o mantinham firme, sendo assim, substituído. Ergueu-se novo Cruzeiro em cimento armado, trabalho executado a cargo da Prefeitura.
O monumento Cruzeiro é um símbolo daquela região urbana, situada na área noroeste (NO) da cidade, onde doze novos loteamentos surgiram por outros empreendedores: Vila Bela Vista, Vila Ruth, Vila David, Vila Marisa, Vila Nossa Senhora de Lourdes, Vila Batista, Vila Bernadete, Vila Flora, Jardim Novo Mundo, Jardim Recanto Alegre, Jardim São Cristovão e Parque Brasil.
Sobre a generalização popular do nome “Cruzeiro” há referências que têm causado transtornos e prejuízos morais e financeiros aos moradores e também para quem tem imóvel no local. Seus moradores, hoje, cerca de 25 mil pessoas se sentem descriminadas por causa de alguns marginais e vândalos que fazem o local como uma espécie de ponto de referência de violência e drogas. Isso faz que os moradores sintam-se ofendidos pela classificação superficial, simplista, de morador do “Cruzeiro” (BJD. 16/11/2002).
Conheço e tenho amizade com alguns antigos moradores da Vila Maria. Demonstram grande amor pelo bairro que residem e, também, aqueles que lá nasceram e passaram sua infância brincando nas ruas, pois aquela Vila era e é carente de áreas de laser. Têm eles grande admiração por “Seo” Sebastião e Pe. Aldo pelas realizações que fizeram e ajudaram no progresso de Bragança Paulista.
“Seo” Sebastião foi colaborador com escritos publicados na imprensa local, especialmente versando sobre sua cidade natal – Bragança Paulista – assuntos que visavam ao âmbito de progresso, que a tornasse mais bem conhecida e projetada no país.
Sebastião Cícero Franco, fundador da Vila Maria exercia a profissão de “corretor de imóveis”, faleceu nesta cidade em 6 de outubro de 1980 com 71 anos de idade. Seu nome está perpetuado em uma rua localizada no Jardim Novo Mundo
Na minha adolescência, por meio de meu pai, conheci Sebastião Cícero Franco, uma pessoa ilustre, polêmico, simples e honesto; pude conhecer “in loco” as obras do surgimento da Vila Maria “a boneca de seus olhos”.
Com este artigo tenho a intenção de mostrar à geração nova um pouco do histórico da Vila Maria, muito desconhecido e de pouca divulgação para a população bragantina e pelos órgãos oficiais.
“Que outras plagas neste País possuíssem outros Sebastiões Francos e teríamos uma nação mais justa” (Benedicto Pinheiro de Souza - Bragança Jornal, ed. 11/10/1982).
José Roberto Vasconcellos é advogado, membro da Associação dos Escritores de Bragança Paulista-ASES, participou na criação, formação e fundação da Associação Bragantina de Letras – ABL.
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