Me passa a manteiga

Por Paulo Botelho

 

Todos os participantes já tinham alguma ideia do objetivo daquele encontro. Conduzido por um consultor especializado e bastante esperto, a programação do treinamento foi inteiramente cumprida; iniciada naquela sexta-feira de maio de 2008 e concluída, após uma feijoada na tarde do sábado, em um hotel da aprazível cidade de Serra Negra. E que hotel: apartamentos individuais, muito confortáveis, comida excelente e banheiros limpos.

Os 28 participantes eram todos gerentes de agências na faixa dos 50 anos de idade e mais de 25 de tempo de banco. Todos portavam crachás com seus nomes e respectivas agências. Na noite de sexta-feira, o consultor foi direto ao ponto: “Vocês estão aqui para conhecerem e participarem do processo de recolocação que chamamos de Outplacement; melhor informando: vocês deverão deixar o banco no decorrer dos próximos seis meses!”.

Assim sendo, eles começaram a se inteirar do  “ganha-ganha” do Outplacement: uma solução de demissão com o objetivo de conduzir os processos de desligamento; invenção americana que pegou bem no Brasil.

O “como se portar” nas entrevistas consumira com boa parte da manhã do sábado, antes da suculenta feijoada. Antes, no café da manhã, o diretor de Operações do Banco Paulo César Evangelista Dávila, tentara ser agradável e interativo. Sentado na cabeceira da mesa, tendo ao seu lado o gerente Armando Fragoso Neto, pediu, lendo o crachá: “Armando, me passa a manteiga!”. Baixinho, muito magro e enrugado, Dávila cultivava uma barba densa e grisalha. Por detrás dela, somente os olhos sobressaiam: inexpressivos, fugidios, sinistros. Pareciam os olhos de um estuprador frustrado; outras vezes, pareciam os de um asno, obediente e submisso aos seus patrões do banco.

Órfão de mãe aos cinco anos de idade, Armando acabou sendo criado pelos avós maternos. Começara a trabalhar no banco, como office-boy, aos 14 anos e procurara seguir o exemplo do avô: trabalhador disciplinado, determinado, honesto. “Não posso decepcionar o meu avô, pois levo o nome dele!”, dizia, com frequência.

Em 1997, no assalto à agência que gerenciava, Armando foi o único que não se deitou no chão, mesmo sob a mira de uma arma. Já tarde da noite daquele sábado, ao chegar em casa, a mulher pergunta, apreensiva: “E como foi, a reunião, amor?”; “Tudo bem, minha flor, eu não vou ser mandado embora do banco!”; “Mas, como você sabe?”; “Porque o Dávila, que me conhece, pediu para passar a ele a manteiga, hoje no café da manhã!”.

 

 

Paulo Augusto de Podestá Botelho é consultor de empresas e escritor. www.paulobotelho.com.br

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