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Conexões Humanas

Por que descansar gera culpa?

Existe uma culpa silenciosa que costuma surgir justamente no momento em que tentamos fazer aquilo de que mais precisamos: descansar. Em vez de alívio, muitas pessoas sentem peso. É como se parar fosse um erro, um desvio, algo proibido. O descanso, que deveria ser reparador, transforma-se em fonte de tensão, ansiedade e autocrítica.

Vivemos em uma lógica que converteu produtividade em identidade. Não basta fazer; é preciso mostrar que se está fazendo. Não basta estar disponível; é preciso estar sempre disponível. O valor do sujeito passa a ser medido pela ocupação constante, pelo desempenho e pelos resultados. Dentro dessa engrenagem, o descanso se torna suspeito, quase uma falha moral.

Ao interromper o ritmo, surge a pergunta incômoda: será que eu poderia estar produzindo mais? Será que estou sendo irresponsável comigo mesmo e com os outros?

Essa culpa raramente nasce no presente. Ela costuma ser aprendida cedo, quando reconhecimento e afeto estavam condicionados ao esforço. Muitos cresceram ouvindo que valor tinha quem não parava, quem suportava tudo, quem se sacrificava. O elogio vinha junto do cansaço. Descansar, então, deixa de ser entendido como necessidade vital e passa a ameaçar a imagem de força que a pessoa sente que precisa sustentar para ser aceita.

Do ponto de vista psíquico, essa lógica é introjetada. A cobrança externa se transforma em uma voz interna severa, que vigia, acusa e desautoriza a pausa. Mesmo quando não há exigências reais, o sujeito se cobra. Mesmo sem tarefas urgentes, sente-se em falta. O descanso deixa de ser um direito e passa a ser algo que precisa ser justificado.

Talvez por isso tantas pessoas só consigam parar quando adoecem. A doença funciona como uma autorização simbólica. Quando o corpo falha, aquela voz interna que acusa finalmente silencia. Só então a pausa se torna possível. Não é um descanso escolhido, mas imposto. O corpo acaba dizendo aquilo que a consciência não conseguiu sustentar: não dá mais.

Há algo de profundamente violento nesse processo. Ele revela que, para muitos, o cuidado só é permitido quando não há alternativa. A pausa deixa de ser gesto de preservação e se torna consequência do esgotamento. O corpo paga o preço de uma escuta que foi adiada por tempo demais.

Além disso, descansar implica enfrentar o silêncio. Sem tarefas, sem urgências, sem distrações constantes, aquilo que foi empurrado para depois emerge: pensamentos, angústias, cansaços antigos. Para alguns, esse encontro consigo mesmos é desconfortável. A atividade incessante funciona como defesa. O movimento contínuo protege do contato com o que dói. Parar ameaça essa proteção.

Nesse sentido, não descansar não é apenas um mau hábito, mas uma estratégia psíquica. Manter-se ocupado é, muitas vezes, uma forma de não sentir, de não pensar, de não reconhecer limites. Descansar exige admitir fragilidade, sustentar o vazio e aceitar que não se é infinito. Isso confronta diretamente o ideal de força e autossuficiência tão valorizado socialmente.

Resgatar o direito ao descanso é, ao mesmo tempo, um gesto íntimo e um ato de resistência. É romper com a ideia de que só merecemos parar quando estamos exaustos ou adoecidos. É reconhecer que existir não precisa ser uma prova permanente de desempenho e utilidade.

Talvez a culpa ao descansar revele menos um problema de preguiça e mais uma dificuldade em autorizar a própria existência sem performance. Enquanto o valor pessoal estiver condicionado à produtividade, o corpo continuará adoecendo para conquistar o direito de parar.

Descansar, nesse contexto, não é luxo nem recompensa. É uma exigência psíquica para que a vida não se transforme em uma tarefa interminável.

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