
Movimento quase que involuntário, automático, a mão tateia o interruptor às cinco da manhã, buscando acender a luz a fim de iluminar a sala em meu caminho rotineiro até a cozinha. A mão para, num ato de reflexo desesperado. Não, não posso acender a luz assim tão cedo, posso acordá-lo!
Aliviada por ter me lembrado disso a tempo, sigo meu caminho curto, mas escuro até a cozinha, onde meu ritual matinal me espera: alho em jejum, vinagre de maçã e pré-treino. Depois, o caminho de volta para o quarto, onde a roupa de academia também me espera. A volta segue escura, mas meu coração tranquilo e iluminado pelo simples fato de ter evitado acordá-lo assim tão cedo. Afinal, ele não é obrigado a madrugar junto comigo, não é mesmo?
Volto do treino e encontro a sala ainda respeitosamente escura. Passo um café, preparo ovos e me lembro de que ele não pode comer muito ovo, lhe faz mal. Termino meu café, a casa ainda silenciosa como que guardada por uma aura de respeito e alguma preguiça. Dali a alguns minutos, já não estará mais assim, o silêncio será substituído pelo barulho que chega com os afazeres do dia, voz de criança e louça e vassoura e conversas várias; a escuridão de antes será substituída pela luz natural do sol entrando na sala, através da permissão das cortinas já abertas a essa hora.
Hoje, foi novamente assim, o movimento da mão parado pela lembrança de não acordá-lo, mas dessa vez, seguido da tétrica recordação de que já não há mais necessidade de nada disso. Ele já não está lá. E quando o sol finalmente atingir o alto da estante da sala, não vai mais dedilhar as grades de sua gaiola, nem tão pouco intensificar o colorido alaranjado de suas penas, nem mesmo impulsionará seu canto estridente. Ele se foi. O canarinho laranja que minha mãe (muito relutante) ganhou de meu irmão em seu último aniversário morreu.
E o que somos nós diante do mistério da morte? O que sou eu diante da realeza de um ser aprisionado por sua beleza?
Eu tentei ajudá-lo, quando notamos um problema em uma de suas perninhas, fiz curativo, usando pomada e muito amor, e isso a despeito das muitas bicadas que levei, não sei ao certo se em agradecimento, ou simples reflexos de dor.
Mas não foi suficiente e agora preciso me acostumar à sua ausência e ao fato de não precisar mais caminhar no escuro. Mas amar não é isso? Um eterno caminhar no escuro? Um abdicar de si mesmo em prol do outro?
Agora posso acender a luz, mas ainda assim, sem sua presença iluminada, o caminho me parece sempre escuro.
Meu consolo é saber que agora ele está finalmente livre. Livre da dor e das grades, colorindo com seu lindo alaranjado o céu dos passarinhos!
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