A cozinha era só sangue, do piso ao teto. Os azulejos cuja dona ostentava sempre branquíssimos, coisa que lhe custava longas horas semanais de trabalho exaustivo, agora estavam tomados por um rubor capaz de causar arrepios.
Havia sangue na mesa, nas cadeiras, no armário, na pia. A cozinha, esse lugar aconchegante, de acolhimento, ao qual normalmente os integrantes da família recorrem para reunir-se em torno da mesa e da comida farta, do aconchego da conversa, e do gole d’água à beira da pia, era agora o retrato de uma barbárie.
Água sempre fresquinha, que o filtro era daqueles bons e antigos filtros de barro. Ela o trouxera da casa da mãe, assim que casara.
Havia sangue até mesmo na água.
E eu ainda me lembro do dia em que ouvi os gritos desesperados dela, quando, fazendo almoço, cortara feio o dedo. Corri para ajudá-la, éramos vizinhas. Naquele dia eu vi bastante sangue, mas nada, nada se comparado ao que vi hoje.
Ela era um moça bonita, simples e educada, trabalhadora, esposa amorosa, e eu sempre disse a ela, tinha uma paciência de Jó. Começara a namorar ainda cedo, na adolescência, o traste. É, vocês me perdoem, mas sempre o chamei assim, mesmo, e principalmente na frente dela.
Sabe, eu sempre desconfiei daquele homem bruto, daquele olhar agressivo que ele quase sempre lançava a ela, principalmente quando na presença de outros homens. É, eu nunca fui muito com a cara dele. Eu sou do tipo de pessoa que só de olhar, já sabe se o santo bate ou não. E meu santo não batia de jeito nenhum com o do daquele sujeito.
Ainda me lembro do sorriso lindo dela, de sua risada espontânea e gostosa, quando estando só nós duas, eu o chamava assim.
Logo que chegaram ao bairro, me chamaram a atenção a beleza e a doçura dela, mas sabem, até isso ela foi perdendo um pouco com o passar dos anos. Eu andei reparando que ela já não se arrumava mais como antes, nem cumprimentava mais os vizinhos com a mesma cordialidade de antes. Parecia estar se apagando, o olhar sempre distante. Parecia mesmo que a alegria de viver lhe estava sendo roubada.
E eu não sei dizer o tamanho da minha indignação, quando soube do que ele fez a ela.
Na verdade, o que eu sei é que ele a foi matando aos poucos, com a frieza e a maldade de quem sente prazer em ver o outro, a quem diz amar, se anular completamente, dia após dia, anular seus sonhos, sua personalidade, sua gana de viver.
Mas naquele dia, naquele maldito dia, aquele monstro terminou seu intento. O maldito, que mal sabia se expressar ou, desculpe a má palavra, mal sabia mijar sem errar a privada, aquele maldito pegou uma arma e deu 17 tiros nela.
Dezessete! Sabem o que é isso? Isso é ódio! E eu sempre soube, amor é que não podia ser.
Em cima da mesa da cozinha, feito uma testemunha calada, ele ainda resiste. A caixa toda respingada de sangue, lá está o liquidificador novinho, que ela guardava para estrear no aniversário de casamento.
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