Lição de vida

A tarde seguia para seu final quando comecei a ajeitar o espaço onde dormem os velhinhos miúdos, mas fui interrompida pelo barulho de um carro estacionando na porta do abrigo. Pela janela avistei um cão pastor muito agitado e três pessoas vindo em minha direção. Meu coração apertou e, mentalmente, recomendei a mim mesma: mantenha a calma... não altere o tom de voz... é só explicar que não pode receber animais com dono, tomara que entendam... se...

Depois de anos enfrentando situações como essa na porta do abrigo, adquiri o mau hábito de prever embates e me armar de argumentos antes mesmo de começar esse tipo de conversa. Os pensamentos pululam na minha cabeça e antevejo todo tipo de final acontecendo. Coloquei as mãos no bolso do jaleco, numa postura de enfrentamento, enquanto as pessoas se aproximavam. Ao cumprimentá-los, cruzei os braços, esperando a ladainha do “vou mudar”.

Confesso que demorei para entender o que ouvi depois do olá sorridente que recebi em troca. “Viemos conhecer o abrigo e trouxemos o Thor para escolher um novo amigo”.

E foi assim que um jovem cão acuado que estava no abrigo a um par de dias foi adotado pelo Thor, o pastor de cinco meses que precisava de um amigo para dividir o quintal e sua imensa energia.

Imediatamente, lembrei do filhotão que fora resgatado na subida da balança e torci para dar certo. Desde que chegou, mantinha-se arredio e recolhido na casinha sem interagir com o grupo. Estressado, curvado e sempre com o rabo entre as pernas, este cão seria alvo de brigas no canil e poderia adoecer facilmente. Precisava sair do abrigo o mais rápido possível.

Os primeiros momentos foram tensos com o impetuoso Thor mas o seu dono dominou a situação. A recepção foi recheada de afagos e logo tínhamos o nosso amigo abanando o rabo a pedir seu colo, sem medo e sem travas. Eu até ganhei uma lambida dengosa. A adoção foi concluída e os vi partindo, cães unidos com uma família.

Fiquei alguns momentos parada no portão assimilando a grande lição que havia recebido, do cão e das pessoas. Mas logo fui distraída pela Kombi que despontava no caminho, trazendo a nossa turminha que regressava da campanha de adoção. Caixa de transporte vazia, final de tarde feliz e mais uma lição na vida.

Campanha de adoção: todos os sábados, das 9 às 15 horas, na Praça Raul Leme – Centro – Bragança Paulista.

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