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Crônicas de um Sol Nascente

Lágrimas de caramelo

Todos as manhãs, antes de ir para a creche, meu filho assiste ao programa “Okaasan to issho” (traduzindo, algo como: “Juntinho com a mamãe”), atração televisiva que há décadas faz parte da vida das crianças japonesas – para terem uma ideia, a mãe dele e os tios assistiram ao mesmo programa quando pequenos.

É o “Okaasan to issho” daquelas atrações como deveriam ser todos os programas infantis – com músicas e brincadeiras educativas. Eu, que cresci vendo o praticamente erótico “Xou da Xuxa”, confesso, fico até com uma certa inveja...

Mas retornando ao programa japonês: as canções são uma gracinha (as apresentadoras nem tanto, mas isso já é assunto para uma outra crônica), e a criançada as adoram. E os adultos também, diga-se de passagem. Dia desses, aliás, uma dessas composições chamou-me a atenção pela mensagem valiosa tanto para os pequenos quanto para os marmanjos. Trata-se de “Drops no uta” (canção dos “bombons” ou “caramelos”). É a respeito de um deus que chora toda hora, seja vendo o sol raiar, seja vendo o sol se pôr. Ou seja: o deus chora na alegria e na tristeza. O detalhe é que suas lágrimas sempre se transformam em caramelos, que são degustados por crianças e adultos.

Uma canção, portanto, com a linda mensagem de que mesmo uma tristeza pode trazer coisas boas – como caramelos para adoçar a vida dos demais.

Acho fantástica a letra da canção, e de um efeito terapêutico até. Porque, diante de uma tristeza, é natural que só vejamos de imediato as coisas negativas. Quando, na verdade, sem que saibamos, essa tristeza pode estar nos preparando algo melhor.

Passei por isso recentemente, com a cirurgia ocular, e não foram raras as vezes que me perguntei sobre o porquê de estar enfrentando tal situação. Eu não sabia, naquele instante, que aquele desafio estava me dando uma grande oportunidade: a de ver com mais atenção os pequenos detalhes da vida – presentes que Deus nos proporciona e que, estupidamente, acabamos ignorando ou não valorizando devidamente em nossa pressa de “querer sempre mais... e logo”.

Hoje, por exemplo, presto mais atenção no verde das folhas e no azul do céu do que nas luzes artificiais dos celulares. E, provavelmente, eu não teria adquirido esse novo ponto de vista se não tivesse passado pelo susto com a saúde de meus olhos.

Ou seja: as lágrimas e o medo tornaram-se os meus caramelos – presentes divinos que desejo, a partir de agora, degustar sem pressa: como a vida ao redor.

***

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quinhentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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