Há duas semanas, recebi a notícia de uma conquista literária muito especial: escrevendo em Espanhol, obtive o primeiro lugar no concurso de minicontos do Festival de Cine de Terror da cidade de Molins de Rei, localizada na região da Catalunha. Para terem uma ideia da importância desse prêmio, o Festival de Cine de Terror de Molins de Rei é o mais antigo evento da Península Ibérica destinado exclusivamente a filmes de terror. Realizado desde 1973, o festival já recebeu, inclusive, clássicos como “O Exorcista” e “A Morte do Demônio”, além de ter contado com a presença de cineastas como Brian De Palma e Jesús Franco. Ou seja: ser premiado em Molins de Rei é um sonho para quem, como eu, adora filmes e livros de terror. De modo que, no último dia treze, quando vi meu texto escolhido como o melhor do Festival – categoria “castelhano” – vibrei. E, como podem ver, pela extensão deste parágrafo, estou vibrando até hoje.
Mas quero falar agora dos cineastas e escritores que, há anos, têm sido uma influência para a construção de meus textos góticos. Entre os escritores, cito Stephen King, claro (quem não?), mas também o brasileiro Álvares de Azevedo (e seu “Noite na Taverna”). E, entre os cineastas, adoro Wes Craven, Tobe Hooper, além do próprio De Palma (“Carrie, a estranha”), somente para mencionar alguns dos mestres do “terror”.
E, juntamente com os nomes consagrados que citei acima, há ainda um outro escritor, com quem me identifico não somente pela temática, mas também pela jornada pessoal – que o trouxe para o Japão. Trata-se de Patrick Lafcadio Hearn (1850-1904), um escritor greco-britânico que rodou o mundo até encontrar a felicidade no Japão. E digo “felicidade” porque a história de Lafcadio Hearn foi mesmo melancólica – e isso desde a infância. Abandonado pelo pai e, posteriormente, pela mãe (tudo isso antes de completar sete anos de idade), ficou aos cuidados de uma tia-avó que, sendo católica, resolveu enviar o jovem Patrick para um seminário: onde logo se destacou nas aulas de escrita criativa. Nessa época, porém, um acidente no seminário fez com que perdesse o olho esquerdo, prejudicando assim aquela que era uma de suas maiores alegrias: a leitura dos livros. Para piorar a situação, pouco tempo mais tarde, em virtude da falência da tia-avó, Patrick teve também de abandonar os estudos e partir para Londres, na esperança de ser amparado por uma família que também acabou por desprezá-lo. Foi quando o jovem, por meio do procurador de sua tia-avó, conseguiu recursos para mudar-se para a cidade americana de Cincinnati. Seus infortúnios, porém, continuaram em terra americana; uma vez que lá também, em Cincinnati, a pessoa que era para recebê-lo simplesmente deu-lhe as costas. Agora, nas ruas e sem dinheiro, Patrick fez o que pôde para sobreviver – até que conheceu Henry Watkin, um socialista e impressor inglês que, vendo o talento literário do jovem, deu-lhe uma oportunidade em seu pequeno jornal. Era esse, pois, o impulso de que Patrick tanto precisava. Exercendo agora a função de jornalista, mudou-se de Cincinnati para Nova Orleans (onde escreveu artigos sobre o a tradição vudu) e, posteriormente, para a Martinica. E foi justamente o jornalismo que, em 1890, trouxe-o para o Japão. Pretendia ficar apenas até o fim de seu trabalho como correspondente, mas acabou se casando com a filha de um samurai, Koizumi Setsuko (sobrenomes aqui vêm antes dos nomes próprios). Logo depois, adquiriu também a nacionalidade japonesa e, adotando o sobrenome da esposa, passou a escrever – principalmente histórias sobre fantasmas e monstros – sob o nome de “Koizumi Yakumo”.
Yakumo, aliás, significa “Oito Nuvens” (oito é um número de sorte entre os japoneses). E é assim exatamente, como uma nuvem, que gosto de imaginar a saga de Patrick Lafcadio Hearn – alguém que enfrentou tantas tempestades na vida, mas que, por fim, encontrou a paz sob a forma de um sol nascente.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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