Há alguns dias, meu editor e amigo André Kondo enviou-me uma foto que me encheu de orgulho: a de meu livro “Crônicas de um latino sol nascente” em destaque na Livraria Sol, em São Paulo – uma casa especializada em literatura nipo-brasileira. E tal imagem deixou-me ainda mais orgulhoso porque a minha obra estava posicionada entre um livro do próprio André (um escritor magistral, vale frisar) e outro da autoria de Junichiro Tanizaki (lê-se “Jun’ichirou”), este um dos “papas” da literatura japonesa.
Claro que, entusiasmado, mostrei a foto para alguns colegas japoneses, sempre concluindo a apresentação com a seguinte frase: “E estou ao lado de Junichiro Tanizaki!”. Porém, qual não foi minha surpresa quando ouvi de muitos deles a seguinte pergunta: “Quem?”.
Caros leitores, para que tenham uma ideia de como é chocante tal indagação feita a um amante da (boa) literatura, imaginem escutar um jovem brasileiro dizendo que não faz a mínima ideia de quem seja, por exemplo, Jorge Amado – uma situação que, acredito, deva estar realmente ocorrendo em nosso país, hoje (des)governado por um cidadão reconhecidamente ignorante. Pois bem: Junichiro Tanizaki está para o Japão da mesma forma que Jorge Amado está para o nosso Brasil. Tanizaki, aliás, chegou a ser um dos seis finalistas ao Prêmio Nobel de Literatura de 1964, e suas obras são citadas até por autores que já receberam o prestigiado galardão: caso do escritor turco Orhan Pamuk, vencedor em 2006 e um fã ardoroso do literato japonês.
De minha parte, li duas obras (traduzidas para o inglês) de Tanizaki: “Naomi” (1925) e “The Gourmet Club” (coletânea de contos, sendo o primeiro deles datado de 1910). E o que posso dizer é que suas obras, que tratam principalmente do processo de ocidentalização do Japão, são realmente brilhantes. Em “The Gourmet Club”, por exemplo, o conto que intitula a obra descreve um banquete com toques de erotismo: tudo de um modo tão detalhado que o leitor parece sentir o “cheiro” das iguarias e do sexo nas páginas do livro. Coisa de gênio, realmente.
Por isso, fiquei espantado com o fato de a atual juventude japonesa ignorar o nome de Tanizaki. E fico ainda mais aterrorizado ao perceber que os autores clássicos parecem condenados ao esquecimento em nosso mundo contemporâneo: um lugar cada vez mais sombrio, em que a literatura é tratada por muitos jovens como uma “baita chatice”.
Sei que, a essa altura, muitos hão de contra-argumentar: “Esses jovens não têm obrigação alguma de ler clássicos ou conhecer autores antigos”. E aí respondo: “Claro que não têm obrigação. Aliás, ninguém tem obrigação de ler coisa alguma. E, já que é assim, permitam-me até acrescentar: por que não acabamos logo de uma vez por todas com essas porcarias de livros? Vamos, acendamos a fogueira e façamos a queima tão ao gosto dos fascistas! Sim, às chamas com todos eles! E aqui desejo até dar a minha humilde contribuição – tomem: alimentem as labaredas com este Olavo de Carvalho!”.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de nove livros, sendo o mais recente: “Crônicas de um latino sol nascente” (Telucazu Edições, 2020). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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