Jorge Negretti: a trajetória de sucesso de um bragantino ilustre

Neste domingo, 15, em que Bragança Paulista completa 250 anos de fundação, o Jornal Em Dia traz aos leitores algumas informações sobre um bragantino muito ilustre, que leva o nome da Cidade Poesia pelos lugares por onde passa. Ele é destaque num esporte pouco praticado, mas muito conhecido e admirado pela ousadia e precisão em manobras radicais sobre duas rodas. Jorge Negretti é um cidadão que orgulha Bragança Paulista.

Numa conversa descontraída, na tarde de sexta-feira, 13, enquanto ele fazia os preparativos para a apresentação que ocorreria nesse sábado, 14, no Posto de Monta, Jorge contou à reportagem que tem 45 anos, dos quais 30 foram dedicados ao motocross.

A paixão pelo esporte começou quando ainda era criança e nem sabia andar de moto, apenas de bicicleta. Certa vez, Jorge assistiu a uma corrida realizada perto do Posto de Monta e achou maravilhoso o modo como os pilotos andavam. “Vi aqueles caras correndo de motocross e achei uma coisa maravilhosa. A partir daquele dia, eu pensei que era isso que eu queria fazer, mas ainda não tinha a menor noção”, contou.

A partir daí, com o incentivo do pai, Jorge teve uma mobilete, uma RX e uma DT e, no final de 1982, fez sua primeira corrida, um evento promocional que aconteceu num espaço ao lado da empresa Ambiente, em Bragança Paulista. A primeira prova oficial em um campeonato ocorreu em 1984, foi o campeonato paulista. “Aí comecei a disputar campeonatos de verdade”, disse Jorge.

Três anos mais tarde, começaria a sequência de vitórias na carreira do piloto bragantino. Ele venceu, na mesma época, quatro campeonatos, brasileiros e paulistas, em diferentes categorias. “Lembro como se fosse hoje, a sensação é inesquecível. Foram quatro emoções, uma atrás da outra, porque eu ganhei o campeonato paulista de 250cc, depois o de 125cc, o brasileiro, tudo separado e tudo na mesma época, uma sequência de fortes emoções, foi muito legal. Campeonato é diferente de quando você ganha uma corrida, que você sente aquela alegria naquele momento. Um campeonato é uma sequência de um trabalho, o resultado de uma campanha, uma coisa mais demorada”, detalha.

De acordo com o piloto, naquela época, as categorias das competições eram disputadas separadamente e hoje acontecem no mesmo dia.

Ao todo, Jorge acumula vitórias em dez campeonatos brasileiros, sendo três na categoria 125cc, quatro na categoria 250cc motocross e três no Campeonato Brasileiro de Supercross, além de mais nove títulos em Campeonatos Paulistas, dois em Campeonatos Catarinenses e os títulos latino-americano de Supercross e Sul-Americano de Motocross. Sem contar as vezes que chegou em segundo lugar em vários campeonatos, que também representam conquistas importantes.

“Me sinto bastante feliz com os resultados que tive, batalhei muito, não caiu do céu. Eu costumo dizer que eu não ganhei nenhum campeonato, porque quando você ganha, é como se fosse um presente, você herdou, ganhou. É diferente quando você vence. Foi uma conquista mesmo porque era muito difícil, era muito disputado, como é até hoje”, considerou.

 

DAS GRACINHAS ÀS MANOBRAS E À CRIAÇÃO DO FREESTYLE, QUE DEU MAIS VISIBILIDADE AO MOTOCROSS

 

Nesse sábado, 14, a Prefeitura de Bragança Paulista homenageou Jorge Negretti, realizando o Negretti’s Day. O Jornal Em Dia perguntou ao piloto sobre como ele recebeu a notícia da homenagem.

“Às vezes, acho que nem mereço tanto. Costumo dizer que o carinho que recebo das pessoas, de uma forma geral, é maior do que o que mereço, é sempre mais do que o que mereço. Estou super lisonjeado, feliz. A gente, na verdade, tenta fazer o inverso, a gente que tenta dar um presente para a população, para a cidade, fazendo esse trabalho, especialmente nesta data, 250 anos, olha que data importante para a cidade. Acho que a cidade merece muito mais. Não quero cometer nenhuma injustiça de citar alguns nomes e não falar de outros, mas, com certeza, Bragança Paulista, em sua história, teve e ainda tem pessoas brilhantes, que construíram essa cidade, que fizeram muito pela cidade. Então, acho que essa festa é de todas essas pessoas. Bragança, esta cidade tão querida, tão bonita, está prestando esta homenagem a todas essas pessoas”, declarou.

Mas engana-se quem pensa que Jorge Negretti é apenas um piloto de destaque no cenário nacional e até mundial do motocross, o que já seria motivo de muito orgulho para a cidade. Ele é considerado ainda o precursor do Motocross Freestyle e responsável pela invenção da rampa móvel usada nas apresentações.

Conforme ele contou, as manobras que hoje são feitas dentro da modalidade de estilo livre, já eram realizadas por ele antes mesmo de se ter atribuído um nome a elas. “Na realidade, as pessoas dizem que eu trouxe o Freestyle para o Brasil, mas não foi bem isso. Foi uma modalidade que eu comecei a praticar até antes de ela existir. Talvez eu seja até mais antigo do que a própria modalidade. Eu fazia manobras antes da modalidade existir. Na época, não era considerado manobra, diziam que o piloto tinha feito uma gracinha, mas a coisa tomou uma proporção que se tornou uma modalidade, evoluiu muito e a própria modalidade acabou dando muito mais visibilidade para o esporte. Até pelo tanto que ela impressiona, pelo nível técnico, o grau de dificuldade, é muito impactante. E também pelo fato de poder ser feito num lugar menor, a gente conseguiu espaço maior de visibilidade. Por exemplo, no McDonalds, não daria para fazer uma corrida na frente do McDonalds, quando a gente fazia os eventos do McDia Feliz, mas a gente conseguiu fazer o Motocross Freestyle”, observou.

A possibilidade de realizar apresentações de Freestyle em lugares centrais das cidades e em locais até então impossíveis se concretizou com a criação da rampa móvel, uma invenção do piloto bragantino. “Nesse ponto, a criação da rampa móvel teve um papel muito importante, no sentido de difundir a modalidade, de popularizar, de levar aos lugares mais próximos da cidade, quase que no centro da cidade. A gente conseguiu levar o Motocross Freestyle a lugares que jamais seria possível por terra, em autódromo, praias. Essa rampa móvel possibilitou isso”, contou.

Sobre como chegou ao desenvolvimento do equipamento, Jorge disse que a necessidade falou mais alto. “Na realidade, foi muito mais por força da necessidade do que da criatividade. Eu já corria há muitos anos, chega uma hora que você sente a necessidade de fazer algo diferente e surgiu a ideia de criar a rampa móvel, porque eu sempre tive vontade de levar o motocross para outras partes do Brasil, só que a logística do esporte é uma coisa muito complexa, tudo é muito caro, fazer uma pista, levar os pilotos para correr. Então, cheguei à conclusão que tinha que pensar em algo mais prático e acabou dando certo de pegar uma época que o esporte estava começando a aparecer. A gente aproveitou isso, demos muita sorte de ter essa ideia nessa época”, avaliou.

Jorge Negretti acrescentou que depois que o motocross começou a fazer parte do XGames, principal evento de esportes radicais no mundo, houve um salto em termos de visibilidade, o que contribuiu muito para que os pilotos encontrassem mais espaço.

O piloto não participa mais de competições, mas faz apresentações por diversos lugares. Nesse sábado, ele se apresentou em Bragança, no Posto de Monta. No próximo domingo, 22, ele e sua equipe farão apresentação na Festa do Bloco do Guaraná, também na cidade. O Salão Bike Show, maior evento de moto do Rio de Janeiro e um dos mais importantes do Brasil, que acontece de 23 a 26 de janeiro de 2014, no Riocentro, também contará com a presença da Equipe Jorge Negretti.

“Quando você vai competir, você precisa ter muito mais tempo para treinar do que para trabalhar. No meu caso, era o inverso, eu estava muito mais trabalhando, viajando por conta das apresentações, do que treinando. Então, não dava para fazer os dois”, justificou.

Jorge observou que o motocross ainda é muito pouco praticado. No Brasil, segundo ele, há apenas 15 ou 20 pilotos. “As pessoas não fazem muita ideia do quanto é difícil. O Brasil tem cerca de 15 ou 20 pilotos. O Motocross Freestyle é um pouco mais difícil porque não tem categorias de base. Você não coloca um garoto de dez anos fazer Freestyle porque não tem essa categoria. Por isso é que são poucos pilotos. Você só tem a categoria de profissionais e agora que está surgindo uma categoria de acesso”, apontou Negretti, acrescentando que dificuldades como a necessidade de equipamentos importados e local para treinar contribuem para que o esporte seja pouco difundido.

 

ANIVERSÁRIO DA CIDADE

 

Indagado pela reportagem sobre o que Bragança Paulista tem a comemorar neste aniversário e o que ele acha que ainda está deixando a desejar na cidade, Jorge considerou que Bragança pode comemorar por ser uma cidade cheia de privilégios, como a própria beleza natural.

“Eu acho que Bragança pode comemorar por ser uma cidade cheia de privilégios, pela própria beleza natural, toda essa beleza que a cidade tem, povo bonito, trabalhador, porque não é toda a cidade que tem isso. Eu viajo o Brasil inteiro, vou para cada lugar que é horrível, é muito feio. Acho que Bragança tem que se dar esse valor. Nem todo mundo tem essa consciência, eu vejo, falam mal de Bragança, não é assim. Posso garantir que tem cidade muito feia, Bragança é linda e com certeza vai ficar melhor. Acho que é uma coisa do brasileiro, o brasileiro reclama muito. O Brasil é ruim, o brasileiro não dá valor para aquilo que tem de melhor e Bragança tem um pouco disso também, algumas pessoas que falam mal da cidade. Vai para Angola, para África, Peru, Venezuela, eu já viajei por mais de 25 países. Quando as pessoas tiverem uma ideia melhor do que é lá fora, vão ver que o Brasil é muito legal. Tem defeitos, claro que tem, mas a parte boa tem que ser destacada”, afirmou.

Entre uma pergunta e outra, um papo com os amigos que treinavam numa pista no Bairro do Bacci. Dentre eles, o também bragantino e talentoso Cyro de Oliveira e pilotos de outras regiões, como do sul do país e até da Itália.

“Bragança, a gente fala que é a capital do motocross. Você vê aí grandes pilotos, como o Cyro, o italiano está cogitando a possibilidade de vir morar em Bragança. Já tivemos americano morando em Bragança. Tem pessoas que vêm de longe para treinar com a gente. Bragança tem vários caras que a gente tem que tirar o chapéu”, destacou.

Por fim, Jorge Negretti deixou seu agradecimento a todos que contribuíram para o sucesso de sua carreira. “A mensagem é de agradecimento a todas as pessoas que sempre me ajudaram ao longo desses anos todos. A gente não pode esquecer, não fosse todo mundo ajudando um pouquinho, mesmo com pensamentos. Tem gente que me encontra e fala que orou por mim, pela minha proteção, isso é importante, porque a gente está exposto a um risco. Desejo que as pessoas consigam ser mais felizes em Bragança”, concluiu.

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