Nesta pandemia, a burocrática “Terra do Sol Nascente” tem caminhado a passos de tartaruga no quesito “vacinação” – para que tenham uma ideia, a população considerada idosa (a saber: a partir de sessenta e cinco anos de idade) começou a ser vacinada somente na semana passada! Claro, não estamos vivenciando o caos que ocorre, por exemplo, no Brasil e na Índia: mesmo porque, ao mais leve sinal de aumento do número de infectados, o governo japonês decreta imediatamente “estado de emergência” – como aconteceu nessa “semana de ouro”, o feriadão japonês (de três dias!) que ocorre todo ano, no início de maio. Tal semana costuma ser muito esperada pela população local, pois constitui um verdadeiro alívio para as pesadas jornadas de trabalho no país: um período em que os japoneses aproveitavam até para viajar – digo “aproveitavam”, pois, como se sabe, viajar tornou-se mais um dos prazeres estragados por essa famigerada pandemia.
De modo que, não sendo possível viajar, a “semana de ouro” de 2021 foi aguardada pelos japoneses como uma oportunidade de relaxar, por exemplo, tomando umas doses com os amigos. Porém, dessa vez, o estado emergencial proibiu que fossem servidas bebidas alcoólicas em bares e restaurantes – com o objetivo, naturalmente, de conter as aglomerações feitas por nossos sempre alegres e incontroláveis bebuns.
Se a tal “lei seca japonesa” atingiu o seu objetivo? Bem, sabem a famosa malandragem? Ela também existe no Japão – fazendo com que, na calada da noite, ruas e pontes se transformassem em bares improvisados para os amantes de um bom saquê.
Pude testemunhar essa “malandragem nipônica” porque saio sempre muito tarde do trabalho, depois das nove da noite. E, na troca de trens de volta à casa, costumo passar por uma ponte em Akihabara, um bairro muito conhecido em Tóquio, principalmente pelos fãs de jogos eletrônicos. Pois bem, numa das primeiras noites da “semana de ouro”, dei aulas e, como de hábito, passando pela referida ponte, pude ver alguns grupos de japoneses com as suas respectivas latinhas de cerveja nas mãos. A polícia, por sua vez, passava fazendo “vista grossa” – o que, nesse caso, até achei justo; pois, afinal de contas, os esgotados trabalhadores japoneses apenas queriam relaxar! Além do quê, ali não havia grandes aglomerações: quando muito eram três amigos reunidos (e cada grupo, diga-se de passagem, mantendo-se bem distante dos demais). Tanto que, ao observar tal detalhe, fiquei pensando com os meus botões: “Até para violar a lei, os japoneses têm sentido de organização, respeitando o distanciamento social”.
Pois é: se fosse no Brasil, provavelmente já estariam fazendo rodinhas de samba. E isso com o agravante de um ou dois assassinatos no fim da noite. Se bem que, neste último caso, Brasil e Japão poderiam até mesmo ter um ponto em comum: o da polícia... fazendo vista grossa.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de nove livros, sendo o mais recente: “Crônicas de um latino sol nascente” (Telucazu Edições, 2020). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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