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Crônicas de um Sol Nascente

JAPÃO RETRÔ

É comum ter-se a imagem, no ocidente, de um Japão futurístico: afinal, trata-se do país dos robôs, trens-bala e outras avanços tecnológicos, que inspiraram no cinema até ficções científicas como “Blade Runner – O Caçador de Androides” (época em que, vale frisar, os Estados Unidos levavam uma surra comercial do Japão). Mas a verdade é que nossos irmãos nipônicos são, principalmente, uns saudosistas. E o que é mais irônico nisso tudo é que esse saudosismo japonês refere-se aos “Estados Unidos do passado”: principalmente os dos anos... oitenta. Ou seja: o que havia, no tempo de “Blade Runner”, era na verdade uma admiração mútua e tácita entre japoneses e americanos, enquanto fatiavam, juntos e ao som de Michael Jackson, os chamados “mercados subdesenvolvidos”.

Pois bem: é provável que os Estados Unidos do século vinte e um já tenha se esquecido da admiração que tinham pelos japoneses (mesmo porque agora estão mais preocupados em não ser engolidos pela China). Do outro lado do planeta, porém, a admiração persiste. E isso até mesmo pelos mais jovens (talvez espelhados no fascínio que os pais possuíam pela cultura ianque).

Quanto a mim, sendo também um saudosista dos “anos oitenta”, confesso que adoro quando estou, por exemplo, em uma cafeteria, e canções como “Drive” (do “The Cars”) e “Say you, say me” (de Lionel Richie) começam a tocar. Aí, olhando ao redor, vejo os jovens japoneses sorrindo e conversando. Claro que muitos não devem nem saber quem é Lionel Richie; mas, embalados pelo ritmo, vão ficando e desfrutando. Porque, sejamos sinceros, embora haja canções boas, ruins (e funks) em todas as épocas, a década de oitenta conseguiu criar realmente um repertório especial: daquele feito para conquistar as mais diferentes gerações. E, ao que parece, os japoneses sabem disso muito bem.

E, além da música, o Japão também adora o cinema oitentista: sendo, por exemplo, os filmes “De volta para o Futuro” (o primeiro) e “Os Goonies” incessantemente repetidos até mesmo na tevê aberta. É como viver em um país em que a “Sessão da Tarde” ainda fosse o festival de nostalgia que nós, brasileiros, aprendemos a adorar.

Sim, eu era ainda uma criança na década de oitenta. Mas, por influência do meu irmão mais velho, o cinema e a música da época tornaram-se inesquecíveis para mim. Assim, a década de noventa, que seria realmente a de minha juventude, acabou não me entusiasmando tanto; coincidindo, além do mais, com os anos em que a tecnologia começava a matar dois dos maiores símbolos oitentistas: o disco de vinil e o VHS.

Aliás, o VHS ainda pode ser encontrado em algumas lojas no Japão (e não necessariamente em antiquários). Não faz muito tempo, por exemplo, comprei um “De volta para o Futuro” nesse formato. Possivelmente, quando crescer, meu filho há de olhar com estranheza a fita de vídeo e indagar-me a respeito de tal objeto. E então será hora de eu pedir, mais uma vez, ajuda à dupla “Doc” e “McFly”...  

 

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de nove livros, sendo o mais recente: “Crônicas de um latino sol nascente” (Telucazu Edições, 2020). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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