Reformas e mais reformas. No Japão, um país de engenheiros, as construções movem a economia. No campo, a agricultura é a base; mas, nas grandes cidades, como é o caso de Tóquio, são os engenheiros e os arquitetos que ditam o ritmo da sociedade. E esse ritmo, vale ressaltar, pode se tornar demasiadamente lento, atrapalhando o cotidiano da população.
Aqui mesmo, em Saitama, onde moro, há três gigantescas obras que parecem não ter mais fim. Uma, inclusive, que já vai para dois anos, afetou muito os hábitos de quem, como nossa família, mora nas proximidades. Trata-se de um local que antes tinha de tudo: padaria, supermercado, lavanderia e até uma clínica de oftalmologia (preciosíssima no meu caso). Só que, claro, com a reforma, todos os estabelecimentos no referido prédio tiveram de fechar as portas, fazendo com que os que necessitassem, por exemplo, de pães e de óculos tivessem de esticar as pernas ou mesmo tomar um trem para obter tais itens. Uma chatice, enfim.
Isso sem falar nas eternas reformas de ruas. De vez em quando, resolvem consertar um buraco “imaginário” – pois, realmente, não se vê buraco algum nas perfeitamente asfaltadas ruas japonesas; ótimas até para bicicletas. De todos os modos, deve existir algum problema que só os engenheiros e os políticos conseguem enxergar. Sim, políticos, pois estes, assim como os seus colegas brasileiros, estão sempre de olho em um superfaturamento de obras. Quem me relatou isso, aliás, foi um amigo que trabalhou em uma construtora local, e que, não suportando mais testemunhar o “acordo sujo” feito entre políticos e empresários para reformas de ruas e avenidas, acabou pedindo demissão.
É... Infelizmente, corrupção é uma praga mundial, isso já se sabe. Mas no Japão, pelo menos, para ser justo, essas constantes reformas apresentam alguns bons resultados. Principalmente no quesito “terremoto”, um dos grandes temores de quem mora no país.
E, de fato, sentimos isso na pele há cerca de dois anos. O prédio em que moramos havia acabado de passar por uma reforma quando, certa noite, a terra tremeu. E a intensidade do abalo sísmico na ocasião foi tão grande que, pela primeira vez, nossos móveis foram ao chão – até postei nas redes uma foto, documentando os resquícios do tremor, o que assustou a muitos amigos no Brasil. E o que nos salvou, no terremoto em questão, foi exatamente a reforma que havia sido feita recentemente; pois esta fez com que os pilares de sustentação fossem adaptados a um eventual tremor (algo como criando um “elástico” que, mesmo esticado ao máximo, não se arrebentaria). Quem nos deu esses detalhes, no dia seguinte, foi o dono do prédio, orgulhoso da reforma salvadora. E nós, naturalmente, agradecemos: aos céus e a ele.
De modo que, apesar dos eventuais transtornos, o Japão ainda precisa (e muito) dessas demoradas reformas: principalmente para evitar as tragédias naturais. E quanto aos políticos que superfaturam nesse processo? Bem, cabe ao povo também fazer uma reforma durante as eleições, “fechando” os caminhos dos corruptos, e, se possível, por tempo indeterminado.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Seu mais recente livro publicado – Contos de um Brasil esquecido (2022) – foi finalista do Prêmio Uirapuru. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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