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Crônicas de um Sol Nascente

Japão alerta

Ainda me lembro da primeira vez que, recém-chegado ao Japão, liguei a tevê deparando-me com a notícia que, então, estava deixando a população do país em pânico: um grupo de macacos, em Tóquio, havia acabado de escapar do zoológico e se dispersado rumo a vários pontos da cidade. E, para piorar a situação, um urso havia aproveitado a revolta dos símios para também dar no pé (ou na pata). O ano era 2001.

Na época, juro, caí na risada com tal notícia. Afinal de contas, tinha acabado de chegar do Brasil: o país dos cidades alerta, dos aqui-agora e outros programas no estilo “respinga sangue” que pipocavam – e ainda pipocam – na tevê. E, enquanto me ria, fiquei mesmo imaginando o saudoso repórter Gil Gomes, com sua voz e estilo inigualáveis, narrando o acontecimento na Terra do Sol Nascente: “Aqui (pausa) agora (pausa) a história (pausa) que está deixando (pausa) todo o Japão (pausa) aterrorizado (pausa mais longa) sob o poder de um bando (pausa de suspense) de macacos!”.

E, acompanhando o desfecho do drama japonês – felizmente (ou não, se você é ativista do Greenpeace) os macaquinhos rebeldes foram recapturados –, não pude deixar de pensar o quão sortudo eu era de estar em um país tão pacífico: sem tiroteios, carnificinas e programas sensacionalistas... sem datenas, enfim.

Claro que, desde aquela simpática reportagem sobre os macacos, muita coisa mudou no Japão: de modo que também aqui (e agora) os noticiários têm sido, digamos, um pouco mais pesados. Assassinatos, roubos, crimes sexuais, enfim, tudo que uma crise socioeconômica pode acarretar (e o Japão, diga-se a verdade, tem enfrentado uma baita crise no século XXI), são notícias que também têm surgido na outrora absolutamente pacífica sociedade nipônica. Isso sem falar nas crescentes ameaças belicistas, vindas de países vizinhos. Semanas atrás, por exemplo, a ameaça de um míssil vindo da Coreia do Norte fez com que o governo alertasse a população de Okinawa sobre a possibilidade de ATÉ abandonarem suas casas. Foi a primeira vez, aliás, que, desde 2011 (ano do grande terremoto), vi que os canais de tevê colocavam o anúncio de alerta máximo. E, dessa vez, falando a verdade, até o brasileiro aqui se assustou. Afinal de contas, com tantas guerras pelo mundo, o “menino maluquinho” que governa a Coreia do Norte poderia muito bem se atrever a puxar uma briga mais séria com o vizinho japonês.

É, senhoras e senhores: no mundo de hoje, até o tranquilo Japão tem se transformado em uma arena. E, vendo todo esse caos, bate mesmo uma saudade daquele ano de 2001, um tempo em que os macacos e os ursos eram os “reis do crime” em Tóquio. Aliás, falando no urso fujão da história que abre esta crônica, fiquei sem descobrir na época se o haviam recapturado ou não. Talvez o sagaz “zé colmeia” tenha conseguido despistar seus perseguidores embrenhando-se em alguma floresta. Talvez até mesmo tenha encontrado uma caverna para hibernar. Só espero sinceramente que, durante a fuga, o bravo ursinho não tenha se atirado ao mar... rumo à Coreia do Norte.

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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