Qual o limite de uma piada?
Há limites para o humor?
Limites em relação ao uso das palavras: dizer algo ofensivo, agressivo, preconceituoso, até mesmo criminoso.
Piada pode ser racista, machista, homofóbica, fazer bullying, discriminar grupos e pessoas, muitas das quais já são historicamente discriminadas?
Esse tem sido o universo do debate que ocupou a redes e desencadeou uma enxurrada de manifestações e editoriais nos últimos dias, após a condenação do humorista Léo Lins por oito anos e três meses de prisão, além de multas e danos morais coletivos, em razão da propagação de discursos considerados discriminatórios contra grupos específicos, como negros, pessoas com HIV, obesas, idosas, homossexuais, indígenas, judeus, nordestinos e pessoas com deficiência. Falas essas reproduzidas tanto nos seus shows de stand-up como nas produções de vídeos para seu canal e redes sociais, acompanhadas por um universo expressivo de pessoas, já que seus vídeos somam mais de três milhões de visualizações e seus shows lotam os auditórios!
O fato de ser uma “piada” não anula o caráter agressivo, discriminatório e criminoso das falas do humorista, que de engraçado não tem nada. A não ser, evidentemente, para quem compartilha e compactua com esse tipo de humor.
E é bem nesse ponto que se instalou uma espécie de racha: uns em defesa do humor irrestrito – e consequentemente em apoio e solidários ao humorista – pessoas temerosas à “censura”, ao cerceamento da tal liberdade de expressão e avessas aos chatos de plantão e pessoas que fazem um mimimi para tudo; em contraponto, estavam àqueles que reconhecem que não há liberdade irrestrita, que o humor não pode se dar as custas da dor, sofrimento e chacota alheia, compreendendo que nenhuma piada tem graça se gerar constrangimento, desconforto ou for agressiva, ainda que verbalmente.
Mas, nos últimos tempos, tem se observado de modo escancarado uma espécie de “descortinamento do preconceito aguardado”, no qual as pessoas se sentem encorajadas e muito à vontade de manifestar toda sua intolerância, discriminação e aversão a tudo que não gosta, respeita ou conhece, seja diretamente contra pessoas, grupos, coletivos ou alguma ação e manifestação específica.
São falas e ações concretas que incitam e estimulam o ódio, a violência, reproduzem estereótipos e preconceitos. Ódio contra aqueles distantes de si; pessoas que não fazem parte do seu ciclo próximo, mesmo porque esse comportamento não é uma via de mão dupla – o que significa reconhecer que não vale para quem reproduz falas ofensivas, sob o mantra de piadas ou não. Ou seja, se acaso for dito algo que desagrade o ciclo próximo de quem propaga tais falas, aí “o bicho pega”, dá-lhe processo e recorre-se aos discursos inflados de defesa e rejeição a esse comportamento!
O universo do humor não é uma terra sem lei. E isso não é censura. Assim como a liberdade artística não é salvo conduto para a reprodução de todo tido de violência e agressão verbal disfarçadas de piadas. Assim também como a própria liberdade de expressão não é infinita, irrestrita e ilimitada, tão atravessada pela compreensão de que o sujeito pode falar e fazer tudo, absolutamente tudo, que desejar. E é preciso diz em alto e bom tom que não é bem assim não...
O riso deve ser livre, solto e entoar notas que alcancem as alturas, mas isso não pode se dar às custas de um tipo de humor que camufle falas discriminatórias, preconceituosas e estereotipadas, disfarçadas numa encenação artística qualquer e construídas a partir de toda uma narrativa envolvente, que prende os olhos e atenção em tom de piada. Isso não tem graça!
Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.
***
0 Comentários