O projeto Memórias Vivas Bragantinas, que vem sendo desenvolvido na cidade pela Comtato Agência Cultural, com co-produção do Edith Cultura, e é patrocinado pela TE Connectivity, por meio do programa TE Conexões Culturais, atua com diversas atividades. Oficinas, cursos, exposições e intervenções fazem parte do projeto.
A proposta do projeto Memórias Vivas Bragantinas é realizar um resgate da memória e do patrimônio cultural por meio de experiências em artes visuais e em audiovisual.
Já foram realizadas, por exemplo, oficinas de desenho e fotografia e uma exposição no Mercado Municipal. Em breve, terá início o curso “A Cidade e o Patrimônio Cultural”, voltado a professores, e também já está em andamento uma oficina de audiovisual, na qual os participantes devem produzir um curta, em grupos, e, para isso, acompanharão as intervenções que artistas promoverão na cidade.
No último fim de semana, aconteceu a primeira intervenção, promovida pelo grupo que vem trabalhando com o artista Gustavo Godoy.
O artista decidiu chamar a atenção da cidade para a questão da conservação do patrimônio cultural, e copiou do Plano Diretor do município o trecho que versa sobre isso para emplacar o texto. Duas placas que continham o conteúdo desse documento, bem como o brasão da Prefeitura, o endereço, site e nome do autor da obra, foram colocadas em dois prédios tombados pelo Condephac (Conselho de Defesa do Patrimônio Artístico e Cultural de Bragança Paulista), mas que estão bastante deteriorados.
Um deles é o imóvel localizado na Rua Coronel Osório, que já abrigou uma escola de idiomas. Outro está localizado na Praça José Bonifácio, ao lado de estabelecimentos comerciais.
De acordo com Daniela Verde, que acompanha o desenvolvimento do projeto, as placas foram afixadas no sábado, 17, e já na segunda-feira, 19, a do imóvel da Rua Coronel Osório havia sido retirada.
Ela também relatou que recebeu telefonema da Prefeitura, na manhã de segunda-feira, questionando o motivo da colocação das placas e disse, ainda, que as intervenções são um desdobramento das oficinas de audiovisual e que artistas foram convidados a fazer intervenções na cidade. A de Gustavo Godoy foi apenas a primeira.
Segundo Daniela, o emplacamento do trecho do Plano Diretor nada mais foi que a democratização da informação. Ela argumentou ainda que não se trata de informação velada que foi divulgada, mas de algo público, que consta no Plano Diretor do município e deveria ser conhecido por todos. O artista, inclusive, usou o site da Prefeitura para fazer sua pesquisa, o que comprova que a informação está acessível, apontou.
Apesar da retirada da placa de um dos prédios e dos questionamentos recebidos pela placa no outro imóvel, Daniela considera que o objetivo da intervenção foi atingido, pois ela repercutiu muito rapidamente. “A reverberação foi rápida. Acho legal ter reverberado, essa é a proposta, que o assunto mexa com a opinião das pessoas para que não aconteça com esses patrimônios o que aconteceu com o Carlos Gomes”, considerou, acrescentando que esses casarões antigos da cidade devem ser usados para outros tipos de ocupações.
O Jornal Em Dia indagou Daniela sobre a necessidade de autorização para a colocação das placas, já que os imóveis em questão, apesar de serem tombados, são particulares. Ela explicou que não há necessidade de autorização, pois se trata de uma intervenção. “A intervenção perpassa essas obrigações. E da mesma forma que não precisamos de autorização para a colocação das placas, os proprietários não precisam da nossa para retirá-las, não podemos obrigar o dono a manter a placa”, detalhou Daniela, enfatizando que o objetivo central é colocar o assunto em pauta e não especificamente os donos desses imóveis “contra a parede”.
A interlocutora do projeto contou que tentará reaver a placa retirada do imóvel da Rua Coronel Osório e que, por precaução, já retirou a que estava no outro prédio, na Praça José Bonifácio.
A reportagem também conversou com o artista Gustavo Godoy, que enviou o seguinte texto à redação:
“PLANO DIRETOR, 2013
Obra do artista Gustavo Godoy
Inspirada na Lei de Acesso à Informação (LAI), que exige dos governos a adoção de uma política de transparência das informações de interesse público, quadros com trechos do Plano Diretor, encontrado no site da própria Prefeitura, foram fixados em fachadas de edifícios tombados e degradados.
A fim de chamar a atenção da cidade para o aparente descaso dos poderes público e privado que aparentam esperar pelo pior, minha intervenção, intitulada “Plano Diretor”, para o projeto Memórias Vivas Bragantinas, visa a reativar o olhar sobre o patrimônio histórico, suas políticas de incentivo e interesse da população pelo assunto.
É fato que, para os proprietários, muitos edifícios antigos exigem alto custo de manutenção e encontram-se desatualizados diante de tantos aparatos tecnológicos e mudanças de costumes, por outro lado, para a sociedade, são importantes fontes de pesquisas materiais e imateriais sobre sociedades passadas que nos ajudam a entender o presente para projetar o futuro. Diante dessa dualidade, o diálogo construtivo entre público e privado passa a ser fundamental para o sucesso de políticas de preservação e de criação da identidade cultural local.
Essa intervenção não poderia acontecer em momento mais apropriado, já que, coincidentemente neste ano, o Plano Diretor de Bragança Paulista passa por uma revisão prevista na legislação.
Fico feliz em saber que a obra alcançou seu objetivo, mas espantado pela rapidez com que os quadros foram questionados e retirados, se considerar a aparência de abandono dos imóveis. Com isso, pergunto:
Qual é o verdadeiro valor da história e patrimônio para Bragança Paulista?
Por que patrimônios históricos são abandonados na cidade?
Quem perde e quem ganha com o patrimônio tombado?
Você já leu o Plano Diretor do seu município?
Gustavo Godoy, artista plástico e sócio-fundador do Coletivo BijaRi, é formado em arquitetura e urbanismo pela FAU-USP e há 10 anos frequenta a cidade de Bragança Paulista.”
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